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Sexta-feira, Agosto 04, 2006
NOVO ENDEREÇO
www.pseudonimos.blogger.com.br
Detesto despedidas.
12:05 AM
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Quarta-feira, Agosto 02, 2006
DESCULPE O INCÔMODO
Estamos trabalhando para melhor atendê-lo.
SALDÃO
Últimos dias!
Em breve, novo endereço.
11:51 AM
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Terça-feira, Julho 18, 2006
SOU
magra
sou comprida
arisca
desastrada
metida
me enrosco
me orgulho
das pintas
cor de chocolate
Sou eu
girafa.
HOJE
Eu não quero nada,
a não ser que seja tudo
com você.
CONVITE
Você
você
vem pra cá
vem
e a gente faz um amigo oculto
só nós dois
um namorado oculto
marido
tarado.
9:41 PM
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Terça-feira, Julho 04, 2006
TERMINEI HOJE
COMEÇO AMANHÃ
8:09 PM
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Quinta-feira, Junho 29, 2006
PRECISAVA DIVIDIR ISSO COM ALGUÉM
Se a vida fosse justa, o Angel não teria saído do "Ídolos" antes da Vanessa e do Lucas e do Paulo Neto e do Osnir. Nem a Austrália teria deixado a Copa por conta de um pênalti que não existiu aos 48 do segundo tempo.
Medo desse juíz - o mesmo que vai apitar o nosso jogo no sábado.
Medo de todo e qualquer julgamento.
PRECISAVA DIVIDIR ISSO COM ALGUÉM II
"Eu, você e todos nós" é adorável. Me fez pensar.
Leve papel e caneta.
Mauro Ventura falou sobre o filme hoje no Segundo Caderno.
11:54 PM
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Domingo, Junho 25, 2006
VOLTANDO À PROGRAMAÇÃO NORMAL
Debaixo do meu travesseiro, "O mundo me ensinou a pecar", uma xerox encadernada das "memórias secretas de uma grande senhora da alta sociedade que iniciou sua vida no submundo da perdição", segundo relato ao repórter Mário de Moraes.
Antes, e nos últimos dois meses, li:
"Quem é Lou Sciortino?", de Ottavio Cappellani
"Mentira", de Enrique de Hériz.
"Desengano", de Carlos Nascimento Silva
"Aprendendo a (vi)ver", de Juremir Machado da Silva
"No sufoco", de Chuck Palahniuk
"Quando em Roma", de Gemma Towley
'Na ponta dos dedos", de Sarah Waters
"Segredos de Família", de Bárbara Taylor Bradford
Recomendo a leitura do "No Sufoco", do Palahniuk - para quem não ligou o nome ao filme, é o mesmo do "Clube da Luta". Dizem pela rede que este é um livro menor do autor. Mesmo assim, me pegou.
Com menos entusiasmo, sugiro o "Desengano" - na minha opinião, melhor no início e pior no fim.
10:16 AM
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Sexta-feira, Maio 19, 2006
S.O.S.
Depois de dez curtíssimos dias fora do país e vinte extra-longos fora da internet, volto a dar as caras por aqui. A má notícia (ou boa, dependendo do ponto de vista) é que o acesso é discado e não sei se terei tempo de acabar de escrever esse post antes de cair pela terceira vez. Tava bom demais pra ser verdade: o Velox deixou de ser gratuito aqui em casa e, pior, agora se recusa a ser instalado novamente ainda que mediante pagamento em dia e pedidos chorosos a operadores de telemarketing incompetentes de nomes improváveis como Charles, Michelle, Ana Vitória, Glauciane e Carlos Henrique. O Virtua está fora de questão por motivos secretos, o Speedy e o A jato ainda não chegaram por aqui. Se alguma boa alma puder me ajudar, me indicando outro acesso de banda larga, terá minha gratidão eterna.
ENQUANTO ISSO, NO SALÃO:
MANICURE 1: Esse friozinho tá bom pra namorar.
MANICURE 2: Esse friozinho tá bom é pra tomar sopa!
UPDATE
A casa branca do post de 20 de julho de 2005 finalmente está silenciosa, ou seja, foi deixada em paz pelo maldito Café Hum. Nada mais de ratos, cheiro de chocolate e papos íntimos dos funcionários às 7 da manhã.
That's all fol
4:19 PM
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Domingo, Abril 16, 2006
REVISTA DO GLOBO
A cada domingo uma capa devastadora: começou com a "Trair é normal", que já me deixou longas noites sem pregar os olhos, convenção internacional de pulgas atrás da minha orelha, depois de ler que a maioria esmagadora dos homens habitantes desse planeta pula, sim, a cerca; hoje cedo, abro o jornal e tenho um ligeiro ataque de pelanca antes do café da manhã ao dar de cara com a capa "A vida sem pão", chamariz de uma matéria que condena também o macarrãozinho de domingo e, pior, manda passar longe da cerveja nossa de cada dia, e pior ainda, muito pior, tem a petulância de sugerir uma lavagem do intestino grosso para retirar o glúten que fica grudado nas paredes intestinais. Como assim!? Nesse ritmo, no próximo fim de semana, acho bom encontrar uma gilete encartada na capa da revista para eu dar cabo de uma vez por todas nessa minha vida sem sentido.
11:55 PM
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Sábado, Abril 15, 2006
ENQUANTO ISSO
12:19 AM
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Domingo, Março 26, 2006
LEI DA COMPENSAÇÃO
Primeiro foi a lâmpada do quarto: aniversariou hoje uma semana queimada. Aí foi a vez da luz do escritório: fez "zit", piscou e apagou bem na minha frente, no momento das doze badaladas. Não me dei ao trabalho de trocar nem uma, nem a outra, de modo que a casa, lentamente, vai ficando escura - tão escura quanto a noite lá fora, tão escura quanto eu.
8:37 PM
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Sexta-feira, Março 24, 2006
0800
Primeiro foi a tevê a cabo. Depois a Caras, seguida de perto pela Super Interessante e pela Veja. Aí foi a vez do American Express - Paris? Hoje? OK. Então, aconteceu com a Internet banda larga. Ganhei tudo isso, no conforto do meu lar, sem pedir e, que beleza, sem desembolsar um tostão furado. Isso mesmo que você leu: tenho revistas, crédito na praça e serviços gratuitos, nada de mensalidade, anuidade, parcelas iguais, nem quilo de alimento não perecível. Ganhei, é meu, tudo meu, muito obrigada, não gosto de fazer desfeita. Não sei se foi sorte, mailing list, conjunção astral, ou espécie de compensação por perdas e danos passados, unha encravada ou dor no cotovelo pontudo. Eu que nunca acertei sequer a linha no bingo, agora não tenho do que reclamar: economizo um dinheirinho, fico por dentro das fofocas da semana, tiro uma ligeira onda com cartão de crédito dourado e aguardo ansiosamente o dia em que abrirei a torneira do banheiro e sairá Prosecco. Só falta. Uma taça e você, dentro do box.
2:00 AM
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Segunda-feira, Março 06, 2006
DOMINGO DE CARNAVAL
"Tanto riso, quanta alegria
mais de mil palhaços no salão
Arlequim está chorando pelo amor da colombina
no meio da multidão"
7:18 PM
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Sexta-feira, Fevereiro 10, 2006
AGENDA 2006
Dias desses, quase trinta depois do primeiro do ano, saí de casa com o firme propósito de adquirir uma agenda. Havia sido tomada por essa estranha necessidade de escrever uma história - a minha. Começaria com tópicos, ou pílulas, talvez de uma palavra, no máximo uma frase curta com o melhor ou o pior do dia - o que fosse mais intenso. Anotaria uma observação, uma lembrança ou algo que eu não pudesse esquecer de jeito nenhum. Listaria também o prático, que ajudasse a me organizar, porque sou eu a bagunça que mais me atormenta, além livros sem estante e camisetas emboladas no armário. A vendedora me apontou a prateleira certa e fiquei até confusa, hipnotizada com tanta variedade, estudando os modelos, passando a ponta dos dedos. É claro que ele reclamou escolhe logo essa tá ótima é só uma agenda quer que eu pague? A sorteada está sobre minha mesa de cabeceira, é preta, passa um elástico por cima da capa, tem o tamanho de uma mão (não a fruta, mas a parte do corpo). E nela comecei a rascunhar relatos diários, como é de se esperar em se tratando de uma agenda. 27 Sexta Friday Viernes Janeiro January Enero Minguante Last Quarter Menguante 8:00 .............. ........... ..... ............. ................. ......................... .................. ........ ..... ......... ..................... .......... ....................... ........... ........ ............ ................................. ........... ......................... ..................... .................................... ........... ..... ............. .............. ...... .... .................
Demorou menos de uma semana para descobrir que para escrever, lembrar, organizar, desenhar, registrar tudo o que eu quero, sem que ninguém leia, sem que nem eu entenda os garranchos cinco linhas depois, precisaria de uma agenda do tamanho de uma jaca.
2:01 AM
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Quarta-feira, Fevereiro 01, 2006
LEITURA DA SEMANA
"Lembre-se que um dia estivemos juntos e tentamos parar o tempo".
frase pinçada de "O último leitor", de David Toscana.
1:51 PM
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Sexta-feira, Janeiro 27, 2006
MOMENTO DONA DE CASA
Eu sei que não pega bem dizer, pior ainda escrever, publicar na internet, assinar nome e sobrenome embaixo. Podem me chamar de louca ou imbecil. Mas a verdade é que quando as máquinas estão funcionando - a máquina de lavar roupa no momento em que centrifuga; a máquina de lavar louça imitando irrigação de jardim; o fogão com mais de duas bocas acesas, água fervendo, cheiro de refogado perfumando a sala de almoçar - enfim, quando estão todos os eletrodomésticos a pleno vapor, ligados e administrados por ninguém mais que eu, a dona da minha própria casa, rabo de cavalo e minissaia, bem, é numa hora dessas que me sinto mais mulher, mulher maravilha, vou salvar o mundo com o meu strogonofe, dupla jornada, independente e capaz. Atualizo o blog e direto pra cozinha: piloto o liquidificador, a torradeira, a cafeteira, o triturador de cebola e se, com sorte, ainda conseguir escutar as batidas do meu coração acelerado, constatar um pico de felicidade. Marido, sexo, reconhecimento profissional, pra quê? Sou réu confessa, permanecerei calada e tudo o que eu já disse poderá e será usado contra mim num futuro próximo.
Imagina quando eu gerar e parir um bebê.
2:09 PM
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Quinta-feira, Janeiro 12, 2006
PRIMEIRAS IMPRESSÕES SOBRE BUENOS AIRES
(anotações encontradas em papéis amassados dentro do guia tempos depois da viagem)
- A comida é pesada e a cerveja é leve. Ambas quentes.
- Todas as carnes e pães são mui esquisitos.
- Os restaurantes são espertos e oferecem amendoim salgado quando pedimos uma cerveja. Alguns dão batata frita ou até pipoca (!).
- Árvores são bem aparadas. Cabelos idem.
- O sabonete do hotel cheira a sabão em pó.
- Nos mudamos para um quarto superior. Uma das diferenças é que o sabonete é maior. Parênteses: ainda cheira a sabão em pó.
- Quem não tem praia trata melhor os parques.
- Os motoristas dirigem mal e não consertam os carros batidos.
- Os taxistas são simpáticos e puxam assunto.
- IMPORTANTE: as melhores sandálias estão nos arredores da Santa Fé com Montevidéu.
- Ou as pessoas se olham suntuosamente, ou meu marido está fazendo sucesso. Ou então eu escolhi roupas incrivelmente inapropriadas.
5:04 PM
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Quinta-feira, Dezembro 29, 2005
EU
"Eu queria tanto encontrar
Uma pessoa como eu
A quem eu possa confessar
alguma coisa sobre mim"
12:14 AM
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Quarta-feira, Dezembro 21, 2005
AS AMIGAS SOLTEIRAS E ÁRVORE DE NATAL DA LAGOA
De repente, os assuntos das minhas amigas se tornaram meio chatos, um tanto bobos, completamente fora de moda - desculpem, meninas. É que fico sem saber o que dizer quando uma delas me pede previsões sobre o mais novo amor da sua vida , se ele está a fim mesmo, o que ele quis dizer com aquilo e, claro, qual é o prazo máximo para ele telefonar de novo. Correm de mim as palavras quando uma das minhas amigas de infância me implora por um parecer de no mínimo duas laudas sobre o seu próprio comportamento no último encontro, parecer este subdividido em tópicos, apontando os possíveis pontos positivos e fazendo críticas construtivas acerca dos negativos. Quando uma amiga mais afoita exige de mim uma estimativa realista com base em fatos recentes e complexos cálculos matemáticos sobre quando o seu presente finalmente virá dentro de uma caixa pequena, preta e aveludada, disfarço. Então, ela especula o que deve fazer para inspirar o conteúdo da tal caixinha, diz que está sentindo uma coisa, uma coisa assim por dentro, tem certeza de que desse Natal não passa.
Parece que foi ontem e, ao mesmo tempo, espero que nunca mais. Como se o meu, e todo meu, amor estivesse (perigosamente) laçado, como se fosse eu um poço de segurança, não aceitamos devolução ou troca depois de aberta a embalagem. Retirei das minhas costas a etiqueta instintiva e rapidamente. Joguei a nota fiscal fora, agora fica comigo, por favor. Não sou nenhuma Brastemp, mas sou carinhosa, vai.
Às amigas, dou o que querem: nada além de um sonrisal, efervescente sabor refrescante, alívio imediato, com doses cavalares de elogios capazes de deixar qualquer nariz apontando para o céu e o coração mexido por uma leve esperança de que sim, o amor existe num fim de tarde chuvoso como o de hoje, debaixo das cobertas, à luz de velas.
Ih, vi um vaga-lume.
Sei que é meio bobo, um tanto chato, completamente fora de moda, mas o fato é que vesti o uniforme das casadas. Mais do que isso: vesti a camisa e coube perfeitamente, bato no peito, é o meu número. Desconfio de que elas, as minhas amigas solteiras, apesar de não serem do time adversário, definitivamente não se interessam pelas minhas mais novas questões filosóficas - referentes à compra do tubo da cortina, à receita da rabanada, ou à sensação sem adjetivos de ter alguém do seu lado até que a morte nos separe. Nenhuma delas considera importante discutir a aplicação do método essencial de divisão das tarefas domésticas entre cônjuges, nenhuma delas está preocupada com o menu do almoço do dia seguinte. Parece que nossa amizade está meio fora de moda, um tanto boba, completamente chata.
Ah, vaga-lume nada. Era o canhão da árvore de Natal da Lagoa, aquele holofote que ilumina até onde os olhos não alcançam. Ela mesma, a árvore que enche meu atual bairro de moradores do ex, trajados com sua melhor roupa e um grande cocar. Estou sabendo que a árvore já é um ícone no natal carioca, é democrática, uma beleza. Mas posso garantir que o espírito natalino passa longe das não-sei-quantas lâmpadas que, ora ora, desenham o contorno de uma vela. Não há espírito natalino no corredor de pessoas que esperam trinta minutos de pé para ver a dança das águas, enquanto jogam papel de bala, saco de pipoca e lata de refrigerante no chão, na ciclovia, na grama da parte mais maravilhosa da cidade maravilhosa.
O telefone toca, é a amiga de infância, aquela que queria e ainda quer saber quanto tempo mais tem que esperar até ele telefonar outra vez. Cansou, tem uma estratégia.
- Vamos dar uma volta na Lagoa? Hem? Por favor! Perto da árvore! A gente dá uma espiada, assiste ao show de águas. Que tal? Não sei bem por que, mas tô sentindo uma coisa, uma coisa assim por dentro, tenho certeza de que ele vai estar lá. O que você acha?
1:32 AM
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Domingo, Dezembro 18, 2005
DESCONTROLE
Mais para controle interno e menos para tirar onda, segue a lista dos livros que li - a trabalho - desde julhó:
1. "Criancinhas", de Tom Perrota
2. "Palavra de Honra", da Ana Maria Machado
3. "Estas histórias", do Guimarães Rosa
4. "A procurada", de Karin Alvtegen
5. "Lendo Tchekov", organizado por Janet Malcolm
6. "Um amor anarquista", de Miguel Sanches Neto
7. "Stravaganza", de Mary Hoffman
8. "Temporada de Casamento", de Darcy Cosper
9. "Memórias de minhas putas tristes", de Gabriel García Marquez
10. "Elas querem é falar", de Nilza Rezende
11. "Boa companhia", organizado por Humberto Werneck
12. "Junta-cadáveres", de Juan Carlos Onetti
13. "Geração T.E.E.N", de Marty Beckerman
14. "Intimidades - 10 contos eróticos de escritoras portuguesas e brasileiras", organizado por Luisa Coelho
15. "Michelangelo - o tatuador", de Sarah Hall
16. "O caçador de pipas", de Khaled Hosseini
Na estante:
17. "Reduzido a pó", de Ana G.
18. "Nenhum olhar", de José Luís Peixoto
19. "A miniatura", de Elisa Palatnik
Por ora e até janeiro, a estante - e só ela - será moradia dos últimos três. Isso porque, menos para controle externo e mais para tirar onda, estou de férias.
11:26 PM
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Segunda-feira, Dezembro 05, 2005
PARALELOS
A nova edição do Paralelos, "Cartas, diários e gavetas mal fechadas", editada pela amiga Ronize Aline está no ar há uma semana e só agora me dei conta. Assino um dos textos, confessional, escrito há alguns meses - antes da mudança, antes do casamento, antes da lua-de-mel, antes do aniversário, antes... Hoje há tantas palavras na fila, que escolhi guardá-las só para mim. Pelo menos por enquanto.
Segue o texo:
C:\Meus Documentos\paralelos3.doc
DIÁLOGO POSSÍVEL, PORÉM INVENTADO:
- A Ronize me convidou pra participar de uma edição do Paralelos.
- Legal.
- Só tem um detalhe: texto confessional.
- Vai escrever sobre o quê?
- Queria escrever uma história de amor.
- Você sempre quer escrever uma história de amor.
- Mas não queria confessar que é confessional.
- Por quê?
- Sei lá. Podem botar olho grande na gente.
- Melhor pensar em outra coisa.
- Não existe outra coisa.
DIÁLOGO POSSÍVEL, PORÉM INVENTADO II:
- A Ronize me convidou pra participar de uma edição do Paralelos.
- Legal. Vai escrever sobre o quê?
- Queria escrever uma história de amor.
- Você sempre quer escrever uma história de amor.
- Só que meus finais são sempre tristes.
- E o que que tem isso?
- O que que tem é que dessa vez vai ser confessional.
- E daí?
- Ué, o nosso final por um acaso vai ser triste?
- Ai, Jesus! Vem cá e me dá um beijo.
LISTA DE COISAS QUE EU FAÇO ANTES DE COMEÇAR A FAZER AQUILO QUE REALMENTE TENHO QUE FAZER
Estágio inicial - pressão leve
1. Vejo seriados enlatados na TV.
2. Respondo e-mails sem importância com menos de duas linhas.
3. Arrumo todas as gavetas do armário.
4. Jogo campo minado.
5. Corto a unha dos pés e rôo as unhas das mãos.
6. Como uma maçã.
7. Faço o auto-exame do câncer de mama.
8. Invento desculpas para mim mesma.
Estágio intermediário - pressão moderada
9. Vejo programas de fofoca na TV.
10. Respondo e-mails sem importância com mais de dois parágrafos.
11. Organizo por cor as roupas dentro do armário.
12. Jogo Campo Minado.
13. Faço um penteado inovador.
14. Como bananadas macias e açucaradas.
15. Me tranco no banheiro e deixo o chuveiro aberto.
16. Falo para outras pessoas que estou adiantada.
Estágio final ou terminal - pressão máxima.
17. Vejo a previsão do tempo na TV.
18. Checo a caixa postal para ver se treplicaram os e-mails sem importância.
19. Acho que não tenho roupa.
20. Bato o recorde do Campo Minado.
21. Me descabelo.
22. Como um pacote de biscoito recheado de chocolate.
23. Choro.
24. Faço uma lista de coisas que faço antes de começar a fazer aquilo que realmente tenho que fazer.
DIÁLOGO REAL:
- Pára de jogar Campo Minado!
- Tô quase batendo o meu recorde.
DIÁLOGO REAL DENTRO DA MINHA CABEÇA:
Por que não escrevo outra coisa? Não existe outra coisa. Bomba. Morte. Posso escrever sobre morte. Bomba, bomba. Ronize disse carta. Morte é dos meus temas. Bomba. Carta o final já vem pronto. Beijo carinhoso, com amor, bomba, um beijão. Minha chance de escrever final feliz.
DIÁLOGO REAL, PORÉM REQUENTADO:
- Pára de jogar Campo Minado.
- Tô quase batendo o meu recorde!
- Deve ser o recorde mundial do Campo Minado.
- Perdi.
- Ótimo. Abre uma página de Word e escreve solto, escreve qualquer coisa. Depois você corta.
DIÁLOGO CORTADO:
ELA, DEITADA NA CAMA, ESCREVE NUM CADERNO, MAS A CANETA FALHA. ELE, DEITADO NA CAMA, ESCREVE A LÁPIS.
- Por isso que eu queria o lápis. Caneta não escreve de cabeça pra cima.
- Depende da caneta. Caneta de astronauta escreve.
- Como você sabe?
- Vi no Seinfeld.
NOTA: O diálogo serviria como apresentação dos personagens. O cenário seria um quarto bagunçado, edredon azul marinho sobre a cama americana, dois abajures acesos. A primeira fala de cada personagem tem que resumir toda a sua existência até aquele instante, uma fala única, que mostre quem ele é e qual é o seu objetivo.
DIÁLOGO REAL (RECONSTITUIÇÃO MNEMÔNICA):
- Tive uma idéia.
ELE NÃO FALA NADA.
- Tive uma idéia pro texto da Ronize!
- Tá.
NOTA: A ficção dá um banho na realidade
"Viver a morte é cruel e eu já desconfiava antes de ela aparecer. Até que chegou sem aviso, apesar de levar uma senhorinha de 94 anos - família longeva. E mudou tudo.
Quando minha avó ainda estava no quarto e podia nos acompanhar com os olhos, recebeu a visita do padre para o último sacramento. A princípio, achei maldade, algo como enterrar a velha antes do tempo. Até que minha mãe explicou que a extrema-unção é para enfermos, um sacramento de cura, passa longe de decreto de morte. Além do quê, o padre parecia saber o que estava fazendo. Mirou minha avó, para quem respirar era um ato heróico e cansativo. Passou o óleo na testa dela, sussurrou um monte de rezas antigas e terminou: 'coragem'.
É preciso muita para morrer. Talvez eu nunca, por falta. Minha avó resistiu mais dez dias no CTI, profundamente sedada, cheia de tubos e cateteres no colo, pescoço, até na bochecha. Seu rosto ficou menos enrugado de tão inchado. Os rins, preguiçosos. A barriga, redonda. As orelhas, essas pareciam idênticas e aptas a ouvir segredos de família que nunca ninguém tinha contado, mas era a última chance.
Na noite em que minha avó morreu - fecho os olhos para lembrar o que jamais vou esquecer: uma noite comprida, clara, vendaval dentro do quarto. Era um vento sinuoso, capaz de entrar por debaixo do lençol e arrepiar minha pele. Acordei duas, três, cinco vezes, arregalava os olhos que não reconheciam nada semelhante. Quando o telefone tocou às seis da manhã, era atender o óbvio. Do outro lado, minha mãe deu a notícia da morte da minha avó, a mãe dela. Pensando assim, fica ainda mais doloroso. Pergunto quando. À meia noite. A sensação é inexplicável, como se um meteoro acertasse o mundo e arrancasse um pedaço colossal, levasse para sempre. Abri uma fresta da cortina e me aborreci com os primeiros raios de sol ganhando a rua. Tudo errado. Deveria estar chovendo, deveria estar trovejando, deveria estar escuro, como eu. Mas não."
DIÁLOGO REAL (RECONSTITUIÇÃO MNEMÔNICA):
- O que você está escrevendo aí?
- O texto do Paralelos.
- É sobre o quê?
- Depois você lê.
- É confessional?
- É.
- Tem eu?
- No início e no fim.
- O meio é sempre o que menos importa.
"Ela estava nua, sobre uma mesa de mármore, embrulhada em um lençol azul hospital. O corpo parecia uma peça de roupa, a roupa que ela vestiu a vida inteira e agora não precisava mais, então, vamos enterrar. Ela não estava ali, não sei desde quando - mais um mistério da morte, que é também do início da vida. Eu sabia que ela não estava, mas ainda assim, não consegui olhar para ela sem roupa, a roupa de olhos verdes semi-abertos, caldo de sangue escorrendo pelo nariz. O moço da funerária vestiu o vestido florido, o preferido, por cima da roupa que era minha avó, colocou dentro do caixão, fechou. Não gostei, achei que só fechassem muito tempo depois, se não houvesse outro jeito. Pediu ajuda para carregar para o carro, abriu o porta-malas. Ainda pedi que ele estacionasse na sombra até que a documentação fosse liberada. Ele obedeceu sem dizer palavra, levou, maquiou, desenhou sobrancelhas grossas que ela nunca teve, bonitas, encaixou a dentadura, encheu de flores. Só esqueceu de forrar o caixão com plástico, de modo que minha avó começou a pingar do meio para o fim do velório."
DIÁLOGO MAIS OU MENOS REAL:
- Por que você está chorando?
- Eu não tô chorando.
- Sou especialista em você, garota. Diz.
- Tô com medo. Você ouviu um barulho?
- Não.
- Não ouviu um barulho lá dentro?
- Não, amor. Dorme, vai. Chama seus anjinhos.
- Fica comigo?
"O medo da morte é ainda mais ardente nos apaixonados, o medo da morte toma conta de mim. Para acalentar o coração, só a certeza de que seus donos são imortais - minha mãe, meu pai, minha irmã e ele. Ou a vida não teria sentido.
Depois que minha avó morreu, veio o pavor de que a morte chegue outra vez. E vejo meus pais com olhos de câmera fotográfica, para guardar os detalhes na memória, como uma triste despedida - algo ao mesmo tempo inconcebível e iminente, ainda que demore míseros vinte anos. E choro só de pensar e não quero mais falar sobre isso."
DIÁLOGO POSSÍVEL, PORÉM INVENTADO III:
- Cuidado para não ficar melodramático.
- O que posso fazer se a minha vida é um melodrama?
DIÁLOGO POSSÍVEL, PORÉM INVENTADO IV:
- Acabou?
- Quase.
- Tá escrevendo sobre o quê?
- Sobre a morte.
- Você vai me matar no começo ou no final?
- Credo! Vem cá e me dá um beijo.
CARTA
Querido, fica comigo, por favor. Fica comigo até o dia da minha morte. Mesmo porque, sem você, a morte vira redundância.
12:07 AM
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Quarta-feira, Outubro 12, 2005
DOIS ANTÔNIOS
A leitura (atrasada) da semana é "Boa Companhia", seleção de crônicas organizadas por Humberto Werneck, pela Companhia das Letras. Divido com vocês dois trechos de dois Antônios, o Prata e o Maria.
O início da crônica do Prata:
Bar ruim é lindo, bicho
"Eu sou meio intelectual, meio de esquerda, por isso freqüento bares meio ruins. Não sei se você sabe, mas nós, meio intelectuais, meio de esquerda, nos julgamos a vanguarda do proletariado, há mais de 150 anos. (Deve ter alguma coisa de errado com uma vanguarda de mais de 150 anos, mas tudo bem).
No bar ruim que ando freqüentando nas últimas semanas o proletariado atende por Betão - é o garçom, que cumprimento com um tapinha nas costas, acreditando resolver aí quinhentos anos de história.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos ficar 'amigos' do garçom, com quem falamos sobre futebol enquanto nossos amigos não chegam para falarmos de literatura.
- Ô Betão, traz mais uma pra gente - eu digo, com os cotovelos apoiados na mesa bamba de lata, e me sinto parte dessa coisa linda que é o Brasil.
Nós, meio intelectuais, meio de esquerda, adoramos fazer parte dessa coisa linda que é o Brasil, por isso vamos a bares ruins,que têm mais a cara do Brasil que os bares bons, onde se serve petit gateau e não tem frango à passarinho ou carne de sol com macaxeira, que são os pratos tradicionais de nossa cozinha. Se bem que nós, meio intelectuais, meio de esquerda, quando convidamos uma moça para sair pela primeira vez, atacamos mais de petit gateau do que de frango à passarinho, porque a gente gosta do Brasil e tal, mas na hora do vamos ver uma europazinha bem que ajuda. (...)"
Final da crônica do Maria, em que descreve o encontro com um ex-amor - se é que a expressão é verossímel.
O coração dos homens
"(...) Seu olhar mendigo nos meus olhos. As boca de criança, cujo rcto eu gostaria de desmanchar com as mãos, porque sentia que, dali em diante, começaria a sofrer.
E ela entendeu. Passou, na boca e nos olhos, o punho da camisa. Como se acordasse, tirou-me de sua frente com uma das mãos e, sem dizer nada, foi andando, com um andar que, então, não era só infeliz, mas trôpego e indefensável, como o dos bêbados. Fiquei a espiá-la, de longe, até desaparecer entre as outras pessoas. Ia batendo os ombros contra os outros. De vez em quando, era olhada com insolência pelos homens que olham moças bonitas. Uns lhe diziam coisas, que deviam ser a mesma sordícies que os homens dizem, há milênios, quando passam mulheres bonitas. Eu espiava de longe, sem sentimento nenhum... Ou com um leve sentimento de proteção, que poderia transformar-se num gesto de defesa ou ajuda. Eu espiava, apenas, vago e desatento. Quanto mais depressa desaparecesse, melhor para mim, que não tenho coração."
10:56 AM
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Sexta-feira, Outubro 07, 2005
UPDATE
Escrevo direto de um cyber, já que estou há algum tempo sem internet e até sem computador. Mas por um excelente motivo: apartamento novo - parece que meu último post foi profético. Muito estresse de mudança e muitas alegrias também, que vêm me inspirando ferozmente até se transformarem em palavras por aqui, assim que as coisas se ajeitarem, entre elas, sofá, cortina de box e tampo de privada.
A LEITURA NÃO PÁRA
Depois de "Temporada de Casamento" e antes de "Elas querem é falar...", tive o prazer de ler "Memórias de minhas putas tristes". Queria deixar um trecho por aqui, mas não deu: teria que ser o romance inteiro.
12:12 PM
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Quarta-feira, Setembro 21, 2005
ALUGA-SE
Depois do terceiro, quinto, décimo-quarto apartamento, os corretores não me dão pelota e já descobri o motivo: são meros assalariados, que ganham comissão apenas nas vendas. Ou seja, ignoram minha insistência e meu dinheirinho suado na tentativa até aqui em vão de alugar um teto razoável, onde possa fixar residência, dormir, ver um pouco de TV, ter meia dúzia de boas idéias por semana, bater um prato de bife com salada de tomate e, principalmente, dividir a vida com o amor.
Mulher moderna e auto-suficiente, corretor pra quê?, passo o dedo no jornal sujo e leio 2 quartos, 3, suíte, vista livre, silencioso, vaga, armários, pintura nova, sintecado, ótimo estado, mobiliado com bom gosto, condomínio barato, sem elevador, prédio familiar, todo reformado, é só entrar, DCE, meu deus, o que diabos é DCE? Telefono só para descobrir: dependência completa de empregada. Desligo, DCE, droga, isso não me interessa, eu lavo, passo, cozinho, faxino, não folgo no feriado, mas durmo na cama do patrão, que é king size.
Depois de algumas semanas de procura, ou duas dúzias de apartamentos revistados, o que mais chama a minha atenção diante de um novo pretendente não é o piso, a bancada do banheiro ou a vista para o apartamento em frente, colado, entrando pela sala de visita sem pedir licença. O que mais tem influenciado o meu torcer ou não torcer de nariz porta adentro do imóvel, quando estou eu paralisada diante de tanta falta de capricho, excesso de poeira e até pernas de barata, como ia dizendo, o que mais influencia o meu parecer é coisa simples, para não dizer boba, difícil de argumentar e impossível de convencer quem dá a palavra final. Mas o nome do prédio, o nome do prédio me influencia. É Rosane, Rosane, quase Rosana, quase. Me chamaram a vida inteira de Rosane e eu tive que corrigir um a um, enfezada, meu nome é Rosana, com "a", ah, sim, senhora, Dona Rosane. E enfim encontro esse apartamento, no prédio Rosane, Rosane, há de ser esse, deve ser um sinal - ou por que outro motivo prédios teriam nomes?
Por favor, não, não me chame de maluca, não, não sou infantil, muito menos desequilibrada, não estou forçando a barra, não me lê assim. Mas agora que comecei vou até o fim e adianto que além do nome Rosane, outros nomes queridos também são capazes de colocar um apartamento como meu número 1 antes mesmo de abrir a porta de entrada. Basta pegar a chaves na vizinha, e a vizinha, olha lá quem é, Dona Edith, mesmo nome, exatamente o mesmo, agora sim, da minha mãe, com agá e tudo no final. Comento a coincidência com Dona Edith, não a minha mãe mas a vizinha, a vizinha que dá um riso amarelo, reluta em me entregar a chave, franze a testa, olha do meu tênis colorido até meu cabelo escuro e deve me achar maluca, infantil ou até uma desquilibrada. E não é só isso: sempre pode ser pior: se o apartamento é no décimo-terceiro andar, número 13, se tem 13 no meio do número, 103, 1303, pronto, já gosto dele imediatamente mesmo que seja só para contrariar.
São tantos motivos aleatórios que determinam uma escolha, o adesivo colado na janela, o hálito do corretor, a simpatia do porteiro, que até me consolo pelas vezes que não fui eu a escolhida, e olha que não sou lá modelo de espírito esportivo, estou mais para de porco. Diante de tantos quartos, salas, cozinhas e lavabos preteridos por mim, paredes brancas, cubas sujas e solitárias ficam para trás e nem digo adeus. Imagino quantos fantasmas fazem por lá moradia, balançam a poeira da sala, de certo mancomunados com os corretores que lhes dão guarida. O resultado é um leve tremor de mãos antes de abrir a porta do armário embutido, tamanho o medo de encontrar um corpo em estágio avançado de decomposição em alguns apartamentos (sic) que tive o desprazer de conhecer.
Fato é que ainda não achei o tal e talvez ele não esteja perdido. Continuo procurando até encontrar, nonstop. Chega essa hora, o relógio bate perto de meia-noite, os apartamentos sozinhos, sem luz, sem TV ligada, e eu aqui, podia estar com um deles, cotovelos no parapeito da janela indiscreta, toda a poeira grudada nos meus pés descalços. Podia estar com ele, não o apartamento, mas ele, ele, e estou aqui. Amanhã, nossa, até amanhã parece uma eternidade, incrível como o tempo passa a cada hora num compasso, amanhã tem mais visita, três candidatos marcados, com sorte um deles é o bilhete premiado e serei feliz para sempre.
11:53 PM
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Segunda-feira, Setembro 05, 2005
MAIS TCHEKOV
"De um modo geral, a frase, por bela e profunda que seja, impressiona só os indiferentes, mas nem sempre pode satisfazer aqueles que são felizes ou desgraçados; é por isso que a mais alta expressão da felicidade ou infelicidade é quase sempre o silêncio; os enamorados se entendem melhor quando se calam, e o discurso ardente, apaixonado, proferido sobre uma sepultura, comove somente os estranhos, porém à viúva e aos filhos do falecido ele parece frio e mesquinho".
De "Lendo Tchekov", trecho do conto "Inimigos" - que não encontrei na rede.
12:30 PM
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Sábado, Setembro 03, 2005
CTRL V
Não costumo dar copy/paste por aqui, mas abro exceção para um conto do Tchekov - a leitura da semana.
Quem ficar com preguiça de ler na tela (eu certamente ficaria), o livro está em destaque em todas as livrarias, chama-se "Lendo Tchekov", página 221.
Brincadeira
Um claro dia de inverno... O frio é forte e seco de estalar, e Nádenka, que eu levo pelo braço, fica com os cachos das fontes e o buço no lábio superior orvalhados de prata cintilante. Estamos no cume de um morro alto. Diante dos nossos pés, até a planície, lá embaixo, estende-se um declive escorregadio e brilhante na qual o sol se mira como um espelho. Ao nosso lado está um trenó pequenino, forrado de pano vermelho-vivo.
- Deslizemos até embaixo, Nadêjda Petrovna! - imploro eu. - Só uma vez! Garanto-lhe, ficaremos sãos e salvos!
Mas Nádenka tem medo. Toda essa extensão, desde as suas pequeninas galochas até o fim da montanha de gelo, se lhe afigura como um terrível abismo de profundidade imensurável. Ela fica tonta e perde o fôlego. Só de olhar lá para baixo, quando eu apenas lhe proponho sentar-se no trenó - que terá então se ela arriscar despenhar-se no precipício? Ela morrerá, enlouquecerá!
- Eu lhe suplico! - digo eu. - Não tenha medo! Compreenda, isso é fraqueza, é covardia!
Nádenka cede, finalmente, e eu vejo pelo seu rosto que ela cede com perigo da própria vida. Acomodo-a, pálida e trêmula, no trenó, sento-me, enlaço-a com o braço e junto com ela precipito-me no abismo.
O trenó voa como uma bala. O ar cortado chicoteia o rosto, silva nos ouvidos, bate, belisca raivoso, até doer, quer arrancar a cabeça dos ombros. A pressão do vento tolhe a respiração. É como se o próprio diabo nos tivesse agarrado com as suas patas, e, urrando, nos arrastasse para o inferno. Os objetos que nos cercam fundem-se num só longo risco, que corre vertiginoso. Parece, um instante mais, e estaremos perdidos!
- Eu te amo, Nádia! - digo eu a meia voz.
O trenó começa a deslizar mais devagar, mais devagar, os uivos do vento e os zumbidos das lâminas do trenó já não são tão terríveis, a respiração já não é tão ofegante, e, finalmente, chegamos ao fim. Nádenka está mais morta do que viva. Está pálida, mal consegue respirar... Eu a ajudo a levantar-se.
- Nunca mais farei isto - diz ela, encarando-me com os olhos dilatados, cheios de terror. Por coisa alguma do mundo! Por pouco não morri!
Logo depois, ela volta a si e já me fita com um olhar interrogador: terei sido eu quem disse aquelas quatro palavras, ou foi apenas uma alucinação dentro do zunido da ventania? Mas eu estou calado diante dela, fumando e examinando com atenção a minha luva.
Ela toma o meu braço e passeamos longos minutos diante do morro. O problema, visivelmente, não a deixa em paz. Foram pronunciadas aquelas palavras, ou não? Sim ou não? Sim ou não? É uma questão de amor-próprio, de honra, de vida, de felicidade, uma questão muito importante, a mais importante do mundo. Nádenka perscruta o meu rosto com olhares impacientes, tristes, penetrantes, responde atabalhoadamente, espera que eu fale. Oh, que jogo de emoções neste rosto encantador, que jogo! Vejo que ela luta consigo mesma, que precisa dizer alguma coisa, perguntar, mas não encontra palavras, está encabulada, amedrontada, embargada pela alegria...
- Sabe duma coisa? - diz ela, sem olhar para mim.
- O quê? - pergunto eu.
- Vamos mais uma vez... deslizar pelo morro.
Subimos para o cume, pela escada. De novo faço Nádenka, pálida e trêmula, sentar no trenó, de novo nos despencamos no precipício medonho, de novo uiva o vento e zunem as lâminas, e de novo, quando o vôo do trenó está no auge do ímpeto e da zoeira, eu digo a meia voz:
- Eu te amo, Nádenka!
Quando o trenó se detém, Nádenka lança um olhar para o morro que acabamos de descer voando, depois perscruta longamente o meu rosto, escuta, atenta, a minha voz indiferente e calma, e toda ela, toda, até mesmo o regalo de peles e o capuz, toda a sua figurinha, exprime extrema perplexidade. E no seu rosto está escrito: "Mas o que é que está acontecendo? Quem pronunciou aquelas palavras? Foi ele, ou foi engano dos meus ouvidos?"
Esta incerteza a perturba, a impacienta. A pobre menina não responde às minhas perguntas, franze a testa, está prestes a romper em choro.
- Não preferes ir para casa? - pergunto eu.
- Mas eu... eu gosto destas... descidas - diz ela, enrubescendo. Não quer deslizar mais uma vez?
Ela "gosta" destas descidas, e no entanto, sentando-se no trenó, ela, como das outras vezes, fica pálida, ofegante de medo, trêmula.
Descemos pela terceira vez, e eu vejo como ela fita o meu rosto, como observa os meus lábios. Mas eu aperto o lenço contra a boca, tusso, e quando chegamos ao meio do declive, deixo escapar:
- Eu te amo, Nádia!
E a charada continua charada! Nádenka se cala, está pensando... Acompanho-a para casa, ela procura andar mais devagar, atrasa o passo, espera sempre que eu lhe diga aquelas palavras. E eu vejo como sofre sua alma, como ela tem que se esforçar para não dizer: "Não pode ser que tenha sido o vento! E eu não quero que tenha sido o vento quem falou aquilo!"
No dia seguinte de manhã, recebo um bilhetinho: "Se o senhor vai ao morro hoje, venha me buscar. N." E desde essa manhã, comecei a ir com Nádenka ao morro, todos os dias e, voando encosta abaixo, no trenó, eu pronuncio, cada vez, a meia voz, as mesmas palavras:
- Eu te amo, Nádia!
Logo Nádenka acostuma-se a esta frase, como ao vinho e à morfina. Não pode viver sem ela. É verdade eu voar montanha abaixo lhe dá medo, como antes, mas já agora o medo e o perigo adicionam um encanto especial às palavras sobre o amor, as palavras que, como dantes, constituem uma charada e oprimem a alma. São sempre os mesmos dois suspeitos: eu e o vento... Qual dos dois lhe declara o seu amor, ela não sabe, mas, ao que parece, isto já não lhe importa mais; não importa o vaso em que se bebe, importa ficar embriagada!
Um dia, fui até o morro sozinho; misturei-me à multidão e vejo como Nádenka chega até o sopé, como me procura com os olhos... E depois, timidamente, ela sobe os degraus... Ela tem medo de ir sozinha, oh, quanto medo! Está pálida como a neve, treme e vai, como se fosse para o cadafalso, mas vai, vai sem olhar para trás, com decisão. Pelo visto, ela resolveu, finalmente, tirar a prova: será que se farão ouvir aquelas palavras estranhas, quando eu não estiver junto? E vejo como ela, lívida, com a boca entreaberta de horror, toma assento no trenó, fecha os olhos, e, despedindo-se para sempre do mundo, o põe em movimento... "zzzzzz..." zunem as lâminas. Ouvira Nádenka aquelas palavras? Não sei... Vejo apenas como ela se levanta do trenó, exausta, fraca. E vê-se pelo seu rosto que nem ela mesma sabe se ouviu alguma coisa ou não. O pavor, enquanto ela voava morro abaixo, roubou-lhe a capacidade de ouvir, de distinguir os sons, de entender...
Mas eis que chega o mês de março, primaveril... O sol torna-se mais carinhoso. O nosso morro de gelo escurece, perde o seu brilho e se derrete, afinal. Acabaram os passeios de trenó. A pobre Nádenka já não tem mais onde ouvir aquelas palavras, e nem há quem as pronuncie, pois o vento não se ouve mais, e eu me preparo para voltar a Petersburgo - por muito tempo, quiçá para sempre.
Uma vez, pouco antes de partir, uns dois dias, estava eu sentado, ao crepúsculo, no jardinzinho, separado do pátio onde mora Nádenka por uma cerca alta de madeira. Ainda faz bastante frio, debaixo do lixo, ainda há neve, as árvores ainda estão mortas, mas já cheira à primavera, e, preparando-se para a noitada, as gralhas fazem grande algazarra. Aproximo-me da cerca e espio pela fresta. E vejo como Nádenka sai para os degraus e fixa o olhar tristonho e saudoso no firmamento... O vento da tarde sopra-lhe no rosto pálido e desanimado... Ele lembra-lhe aquele outro vento, que uivava lá no morro, quando ela ouvia aquelas quatro palavras, e seu rosto fica triste, triste, e pela face desliza uma lágrima... E a pobre menina estende os braços, como se implorando ao vento que lhe traga aquelas palavras mais uma vez. E eu, esperando o vento favorável, sopro a meia voz:
- Eu te amo, Nádia!
Deus meu, o que se passa com Nádenka! Ela solta um grito, sorri com o rosto inteiro e estende os braços ao encontro do vento, risonha, feliz, tão bonita. E eu vou arrumar as malas...
Isto foi há muito tempo. Agora, Nádenka já é casada; casaram-na, ou foi ela mesma que quis - isto não importa - com um secretário da Curadoria, e hoje ela já tem três filhos. Mas os nossos passeios no morro e a voz do vento trazendo-lhe as palavras "eu te amo, Nádenka", não foram esquecidos. Para ela, isto é hoje a mais feliz, a mais comovedora e a mais bela recordação da sua vida...
Mas eu, hoje, que estou mais velho, já não compreendo mais, para que dizia aquelas palavras, porque brincava...
(Traduzido por Tatiana Belinky)
12:15 PM
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Segunda-feira, Agosto 29, 2005
UPDATE
Legal, escrevi o texto do Paralelos. O prazo foi prorrogado para dia 25, hoje é 29 e ainda não tem data certa para ir pro ar - o que dá uma enorme vontade de mudar tudo, trocar palavras, escrever outro, sei lá. A boa é não abrir mais o arquivo, para não ter jeito.
***
Essa semana li "Stravaganza - a cidade das máscaras", digo, estou quase acabando, quase.
É, o prazo é amanhã, eu sei. Mas funciono melhor na pressão.
***
Na onda do confessional e por falta de assunto melhor, admito que hoje procurei comunidades no orkut. Achei na página da Bruna, a sensacional "Odeio o primeiro pão de forma". Já achava engraçada essa capacidade de odiar e amar dentro do orkut, visto o número de comunidades que começam com "eu amo" e "eu odeio". Rola uma identificação, mais com esse do que com aquele. Só que o ódio profundo ao primeiro e indefeso pão de forma me comoveu. Tanto que me pronunciei numa comunidade pela primeira vez, me senti em casa, ali é o meu lugar. Foi uma estréia medíocre, um comentário quase idêntico aos 19 anteriores, porém muito importante para mim. Depois disso, entrei na "Eu não tenho + o que fazer" e respondi o tópico "Bata a cabeça no teclado e diga o que saiu". E depois vim blogar.
Por increça que parível, isso quer dizer que tenho muito o que fazer.
***
Assunto melhor: amanhã começo o Workshop de Personagens que será coordenado pela Edna Palatnik, com a participação de Lúcio Manfredi e Carlos Gregório. Serão quatro encontros, sempre às terças e estou curiosa / animada.
9:37 PM
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Terça-feira, Agosto 16, 2005
LIVROS, FILMES E VIDEOTAPE
Tudo bem que eu não digito sequer duas linhas no blogue há quinze dias. Pelo menos li um bocado:
1. "Criancinhas", do Tom Perrota
2. "Palavra de Honra", da Ana Maria Machado
3. "Estas histórias", do Guimarães Rosa
4. "A procurada", de Karin Alvtegen
Amanhã começo "A morte do Rei Tsongor", de Laurent Gaudé, depois parto para "Stravaganza - a cidade das máscaras", de Marry Hoffman, para enfim mergulhar em contos do Tchecov.
Além dos livros, assisti ontem ao belíssimo filme argentino "Valentin". Demorou, mas agora está na locadora mais próxima.
De alguma forma, mais cedo ou mais tarde, tudo isso que leio ou assisto vai transparecer na minha escrita. Além, é claro, do enorme e crescente amor dentro do peito.
***
A amiga Ronize Aline me convidou para participar de uma edição do Paralelos. O tema é confessional e o prazo é dia 18. Será que dou conta? Ademais, confessional assumido um tanto me inibe. Adoro ter a desculpa de que é ficção, ou ao menos o benefício da dúvida. Até o momento, meu cérebro vem tentando ferozmente uma maneira de passar a perna na amiga e lançar mão de um ficcional-confesso ou alguma outra saída mais engenhosa. Veremos.
12:28 AM
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Segunda-feira, Agosto 01, 2005
CENA N - QUARTO DO CASAL - INT/NOITE
ELA DEITADA NA CAMA DE OLHOS FECHADOS.
ELE LÊ SENTADO AO LADO.
ELE: - Dormiu?
ELA: - Não.
- Vai dormir?
- Não.
- (IRÔNICO) Deitada na cama de olhos fechados?
- Só tô escrevendo idéias dentro da cabeça.
- Que idéias?
- As melhores que já tive.
- Escreve num papel.
- Aí elas vão deixar de ser as melhores.
11:15 AM
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Domingo, Julho 31, 2005
AOS MEUS DOIS OU TRÊS VISITANTES
A empolgação com o blogue durou pouco. Sem ofensas, não consigo escrever aqui se tenho algo mais para fazer. Donde se conclui que, sem ofensas II, no meu caso, blogue é para desocupados. Antes que eu perca as preciosas duas ou três visitas diárias, repito as palavras do Nix - bem mais acertadas: "No News = Good News. Sim, porque há vida além dos posts".
A boa notícia é que arranjei uma ocupação que justifica o meu contrato. Seguinte: leio um livro por semana e redijo um parecer. Simples assim. Significa que estou sendo paga para fazer o que - pelo menos teoricamente - fiz a vida inteira de graça, leia-se ler. O trabalho é bom e, além de aumentar em 50% o contra-cheque, enriquece minha cultura e minhas referências literárias.
Essa semana é a vez do mineiro, doutor e inigualável Guimarães Rosa.
"Quando escrevo, repito o que já vivi antes.
E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.
Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo
vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser
um crocodilo porque amo os grandes rios,
pois são profundos como a alma de um homem.
Na superfície são muito vivazes e claros,
mas nas profundezas são tranqüilos e escuros
como o sofrimento dos homens."
"Oh espantosa vida. Coisa vulgar é a morte"
Satisfações dadas, um beijo, outro, tchau.
Tenho mais o que fazer.
8:03 PM
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Quarta-feira, Julho 20, 2005
SOM E FÚRIA OU A SAGA DA CASA BRANCA
A casa branca (localizada na rua Valparaíso, 57) já foi musa inspiradora de minhas fantasias de infância - um tempo que mais parece dos meus tataravós, tamanha a dificuldade de voltar a olhar para ela com algum sentimento diferente de raiva, mais forte do que a dor de uma traição ou de se sentir passado para trás. Exagero? É porque não é você que tem o sono incomodado por conta das ações provavelmente ilícitas do lado de lá do muro.
Há cerca de um ano, mudou-se para o endereço quase idêntico ao meu a cozinha industrial do Café Hum. Esse que tem lojas em Ipanema, no BarraShopping, no Plaza Shopping e em outros oppings Rio de Janeiro afora. Por maior que seja a sede ou o desejo de comer doce, nem se o Café Hum fosse a última Coca-Cola do deserto, nem que meu bebê nascesse com cara de brigadeiro, não, juro que não compro sequer um cajuzinho por ali.
A cozinha vizinha não tem placa, não tem respeito pelos vizinhos, nem nunca nos ofereceu uma única fatia de torta, ainda que fina, dessas perfumadas que testemunho a confecção. Em vez disso, ratos, baratas e, de cortesia, fofocas em alto e bom som da vida íntima dos funcionários que dão expediente, inclusive, de meia-noite às 6 da madrugada.
Além de caprichar na cara feia a cada vez que passo na frente da casa branca, além de sentar a mão na buzina toda vez que um caminhão de mate estaciona na frente da garagem, já tomei atitudes mais adultas, como fazer uma denúncia à Vigilância Sanitária que, diz o senhorio, rendeu-lhes uma multa - certamente menor do que a ratazana que adentrou minha área de serviço.
Depois da multa, levantei a bandeira branca para a casa branca, mesmo porque tentar puni-la dá a maior dor de cabeça.
Nesse dia de chuva e hormônios alterados, declaro guerra novamente. Telefone em punho, disquei novecentos e quarenta e dois números, começando pela Ouvidoria do Ministério Público (127), que me mandou ligar para o Corpo de Bombeiros (3399-1234), que me passou mais uns quatro números diferentes: 3399-4316, 3399-4318 - onde falei com o simpático bombeiro Jean, que me passou os 3399-4325 e 3399-4328, não sem antes me advertir de que àquela hora não haveria ninguém para atender. O bombeiro Jean estava certo, ninguém atendeu e portanto ninguém pôde me mandar anotar outros três ou quatro números que justificassem mais vinte ou trinta minutos pendurada no telefone.
Foi aí que desisti, chega, por que tanto ódio dentro do meu peito? Estava na hora do almoço. Não que estivesse com fome, mas os funcionários, estes não dispensam o horário nem por um bife acebolado com fritas.
Antes disso, já havia bingado o número da Coordenação da Prefeitura da Tijuca. Decoro: 2503-3683, 2503-3683. Fiz uma denúncia anônima, mas, pensando melhor, deveria ter deixado nome e sobrenome marcados com lumicolor, para refogar o gosto de vingança pelas noites mal dormidas, em que os barulhos da cozinha industrial do amaldiçoado Café Hum fazem a sonosplatia dos piores pesadelos - como os de ontem. Resta aguardar 30 dias e, infelizmente, 30 noites e enfim ligar de novo para o mesmo número (o inesquecível 2503-3683) , cantando as palavras mágicas - tê de tatu, treze mil quatro dois oito, rezistro (sic) da denúncia.
Espero receber e repassar boas notícias, exceto para a minha arqui-inimiga.
12:40 PM
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Quarta-feira, Julho 13, 2005
PARADOXOS
Pintaram o céu de azul, com nuvens de algodão.
Jorge Ben canta uma música mais ou menos assim:
"Que que eu quero mais,
se eu sei que a vida é bela e linda?
Que que eu quero mais,
se eu estou de bem com a vida?"
Logo à frente, paradoxalmente, no banco de trás, dois meninos de seus oito, nove anos. Fazem careta e, paradoxalmente, dão risada ao mesmo tempo. O alvo é o motorista do caminhão velho que, paradoxalmente, responde com caretas sofisticadas. Ele balança a cabeça, tira as mãos do volante por poucos segundos, mas suficientes. Os meninos riem, gargalham, como só as crianças são capazes - ou como eu só era capaz quando era pequena.
Acelero e encosto na traseira dos meninos. Eles tratam de fazer caretas novas, agora para mim. Caretas de garotos, caretas paradoxalmente lindas. No final de cada uma, se jogam no banco do carro para jogar o riso fora.
Foi aí que acabei com a brincadeira. Foi sem querer e, paradoxalmente, uma vontade daquelas. Joguei beijos para os meninos, beijos carinhosos, de biquinho. Soprei o ar. Paradoxalmente, os meninos ficaram sérios, coraram as bochechas, cutucaram um ao outro como se eu não percebesse, me olharam de canto de olho como se meus beijos tivessem acertado em cheio.
11:31 PM
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Segunda-feira, Julho 11, 2005
NOTAS ATRASADAS SOBRE A FLIP
Clarice
Sempre temi Clarice. Talvez por não conseguir entendê-la e descobrir-me burra. Ou não passar dos títulos, como "A Paixão Segundo G.H.". Além do trauma da leitura obrigatória de "A hora da estrela". Fato é que depois de assistir à homenagem e à mesa com Marina Colassanti, começo. Por "Perto do coração selvagem".
Clarice e Chico
Chico Buarque, logo ele, confessou que sempre se sentiu intimidado ao lado de Clarice, que era uma mulher desconcertante. Em outras palavras, não sou a única a temer a escritora e estou em ótima companhia.
Clarice e Lygia
No telão, antes do Chico, falou Lygia, mais ou menos assim. "Estávamos viajando de avião para um encontro de escritores fora do país. No decorrer da viagem, houve uma série de turbulências e todos os passageiros ficaram nervosos, temendo pelo pior. Principalmente eu que detesto avião! Foi então que Clarice, muito calma, segurou o meu braço, olhou dentro dos meus olhos e, puxando os erres, disse:
- Fique tranqüila, Lygia. A cartomante me assegurou de que não vou morrer em acidente".
Prosseguindo o causo sobre Clarice, Lygia contou que depois de participarem da mesa no tal encontro de escritores, foram se informar se teriam que assistir às outras discussões ou poderiam sair. Após serem liberadas, escolheram um bar para tomar um drink, ou dois. De volta ao hotel, no fim do dia, Clarice olhou os outros escritores e reclamou que eles falam demais, discutem demais, pareciam exaustos. Já elas, não: estavam lindas e revigoradas.
Show do Paulinho da Viola
Melhor, só se tivesse love seats.
O bom da FLIP
A FLIP é uma festa de partilha, das mais generosas. A melhor parte é conhecer autores que talvez ficariam de fora da minha biblioteca. No ano passado, Rosa Montero foi a grande descoberta. Nesse ano, o português José Luis Peixoto leu ótimos trechos de "Nenhum olhar" e o brasileiro Cristóvão Tezza atiçou a vontade de ler "O fotógrafo".
Já a melhor mesa, ao meu ver, foi a do Jabor, que logo nos primeiros quinze minutos de conversa se transformou na mesa do MV Bill. Nunca vi nada igual: aplausos de pé e vaias indignadas, interrompendo as falas dos palestrantes. Sem dúvida, a mesa mais quente da FLIP. E olha que eu estive nas três. E olha que tava um frio de bater os dentes.
Noção da realidade
Às vezes, e eu diria que são muitas, a ficção parece tão real, que toma ares de confissão. Já outras realidades são tão distantes, tão cruéis e até inomináveis, que nos custa acreditar que não são cenas de filme, leia-se ficção. Mas são reais, sim. Infelizmente estão mais perto do que a gente pensa e saem da boca de MV Bill, aplaudido de pé.
LFV
É claro que não paguei ingresso para ver o Jô e sim para assistir ao Veríssimo. Adoro vê-lo passar pelas ruas de Paraty, devagar, pele rosada, ao lado da mulher, sempre do mesmo jeito, talvez até a mesma roupa. Ao dar início aos trabalhos, lembrou que ele e Zuenir já tinham ido à FLIP como entrevistados e agora haviam se transformado em mediadores. E completou: "No ano que vem, se nos convidarem para ajudar a armar a tenda, viremos com prazer". Eu compro ingresso.
Promete
Não é porque é minha amiga, não. Mas a sinopse do primeiro romance da Christiane Tassis é no mínimo instigante: sabendo que vai perder a memória em pouco tempo, um homem pede que uma mulher entreviste seus amigos, parentes e ex-namoradas para depois escrever sua biografia e assim preservar sua memória. Só que a tal escritora muda os fatos para parecerem mais interessantes e passa a inventar a memória do enfermo. O romance fala de lembranças, invenções e fala do amor - que, segundo Christiane, é mais uma invenção.
Que mais?
Por enquanto é só pessoal.
10:36 PM
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Segunda-feira, Julho 04, 2005
À FLOR DA PELE
O amor - sempre ele - , muito bem acompanhado por todos os seus clichês, é a melhor hora do dia, não tem pra ninguém, olhos fechados, morangos com chantili. Rouba a cena, faz de mim pequenininha e, ao mesmo tempo, maior. Falo do amor correspondido, repare bem. O outro faz ferida, tempestade, é uma ratoeira. A mim dá agonia só de ver separados casais que pareciam perfeitos, dentro de suas imperfeições. Foi mandinga, um dia levantou e o infinito tinha acabado. Não adianta dizer o contrário, porque nunca é em comum acordo, nunca é na hora certa. Sobra um mais chateado que o outro, abanando a cabeça, sem bússola. Tento disfarçar, mas reparo de canto de olho o momento em que se cumprimentam: trocam improváveis dois beijinhos no lugar de um só - que já foi tão bom, de língua. Os amigos confortam, numa tentativa frustrada de convencer de que passa, é assim mesmo.
Ainda bem que o meu é para toda a vida.
12:14 AM
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Domingo, Julho 03, 2005
EU E O MEU MINIMUNDO
De vez em quando, quase sempre, não sei reagir diante de demonstrações de afeto. Inda mais se partirem de pessoas que eu gostaria de ser um pouquinho.
Um dia, muito longe, quando eu não era nem projeto (se bem que nunca fui), minha mãe foi convidada para um jantar chique. Na hora do cafezinho, o anfitrião tira um embrulho do bolso e entrega a ela. Era uma jóia, nada menos que uma pulseira de ouro branco cravejada de brilhantes. Diante dos outros convidados, boquiabertos de boca cheia, minha mãe, entre emocionada e constrangida, agradeceu, dizendo que a pulseira era bonitinha, obrigada.
Ontem ganhei uma pulseira de brilhantes.
10:29 PM
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Quinta-feira, Junho 30, 2005
PRIMEIRAS VEZES
October 4, 1950 - Snoopy's first appearance.
March 25, 1955 - The first time Snoopy goes after Linus's blanket.
Dec. 12, 1958 - Snoopy's first try at sleeping on top of the doghouse.
July 12, 1965 - Snoopy writes his first line as an author.
2:36 PM
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Quarta-feira, Junho 29, 2005
TESTEMUNHO DE UMA EX-CÉTICA
Sonhei com a minha vó de novo. O primeiro sonho foi mudo, durou o tempo de um tchau, mão pra lá e pra cá, sorriso no rosto, roupa preferida no corpo. Olha que isso foi dois dias antes de ela morrer. Dessa vez, o sonho teve falas. Quer dizer, ela falou e eu fiquei prestando atenção. Contou que ouviu tudo o que a gente disse enquanto ela estava no CTI, nossas conversas, rezas, ela ouviu nossas lágrimas molhando o travesseiro. Disse que já sabia o final da história. Depois riu, balançando a barriga.
Você acredita em sonhos?
Será possível que uma pessoa esteja mais próxima depois da morte?
Acho que ganhei um anjo.
11:59 PM
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Segunda-feira, Junho 27, 2005
COPY + PASTE DE ALEXANDRE MACHADO E FERNANDA YOUNG
RUI E VANI NO CARRO, RÁDIO LIGADO NO FÁBIO JÚNIOR.
Ela canta "sentindo" a música. Ele observa de rabo de olho.
Rui corta a onda, abaixando o volume.
Rui: Vamos aonde?
Vani: Tanto faz. Aonde você quiser.
R: Você quer fazer o quê?
V: O que você decidir pra mim tá ótimo.
R: Mas que tipo de lugar?
V: Tô na boa, Rui. Qualquer lugar tá bom.
Rui pensa por um momento.
R: Cinema?
V: Cinema? Sábado?
Vani faz uma careta.
*****
RUI E VANI VOLTANDO PRA CASA DEPOIS DO BALÉ
RUI: Da próxima vez que você quiser um pouquinho de cultura, vai fazer cocô lendo enciclopédia, oquei?
VANI: Eu adorei!
R: Quero oito "lambidas gigantes".
V: Oito?!
R: Como compensação por danos morais.
V: Oito não dá! Vou ter uma distensão no músculo da língua.
R: Então quatro lambidas gigantes e uma "sirene de ambulância".
V: "Sirene de ambulância"? Não conheço.
R: Não conhece?! Não acredito! Menos 10% de cultura nessa tua cabeçorra e cabia um pouco de sacanagem!
V: Me explica. Eu berro que nem sirene?
R: Berra. Sentada em cima. E eu fico dando uns tapas pra você girar.
V: Gostei.
R: Combinado então?
V: Combinado, mas depois eu quero um "mergulho em Acapulco", conhece?
R: Conheço. Eu tomo bastante fôlego e mergulho de cabeça, não é isso?
V: E demora uns cinco minutos para subir à tona.
10:18 AM
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Quarta-feira, Junho 22, 2005
Uma história dentro da outra
Letras minúsculas, palavras fáceis e frases curtas costuram idéias dentro da minha cabeça. Mãos no volante, bem longe de um pedaço de papel. Bastava uma caneta e rabiscaria antebraço afora com o objetivo único de guardar as palavras e não perder suas histórias. Soltas, são um perigo, vão embora sem nem dizer adeus.
Era uma vez uma menina, meiga e doce, dentro do carro. Não. Era uma vez um carro, bem conservado, terreno fértil de idéias, 90 quilômetros por hora. Mas o que vale são as caronas e não a motorista, muito menos o carro. Era uma vez uma história, muito esperta, que pega carona no carro conservado quando a menina doce e meiga pega a orla. A história adora vista pro mar. Como todas as histórias, é livre, flutua pelo calçadão, sobe até a cobertura do prédio sem usar elevador, escapa do sinal amarelo, ou pela fresta de vidro aberto. A história escapou da menina doce e meiga pela janela do carro conservado, de frente para o mar.
Em menos de dois segundos, voou para longe, se misturou com as outras. São tantas histórias robustas, nervosas, sedutoras, caminhando ao lado das crianças, do casalzinho recém-separado, histórias sentadas na cadeira de balanço, presas no espelho retrovisor, histórias carinhosas e outras assustadoras, histórias esperançosas de que alguém as veja num relance, lhes puxe pela ponta e as tome para si. Depois, contar para o irmão mais novo, tirar vantagem com a namorada, ou, que seja, embrulhar peixe no dia seguinte.
Uma história não quer outra coisa, se não ser contada. Se, por sorte, ganhar capa dura e destaque na vitrine, tanto melhor. Mas se o contador não for lá muito experiente e pular uma parte, esquecer detalhes fundamentais ou até mesmo o final, não tem problema. A história não fica brava, porque pelo menos foi contada. Se bobear, será lembrada dois ou três dias depois por um sujeito que se identificou com ela, aquela parte do beijo, sujeito de boa memória, criatividade mediana. Improvisa um final novo para a história e ela fica toda toda.
No corredor do prédio, ouço a chave virar na porta vizinha. Ela veste avental vermelho, calça chinelo de pano. Manda recado pra Valéria, avisa que dessa vez não pode ir, mas vai na próxima. O vizinho marido suado diz que está bem, entra no elevador comigo, dou um passo atrás. Abro espaço para ele, sua história, a história da vizinha, do avental vermelho, mais a história da tal da Valéria. E as minhas histórias - que entraram na frente e gostam de descer perto dos botões. Fico com medo de o elevador cair.
Entro no salão e observo a mulher que pede para o cabeleireiro cortar só a franja. É um cabelo fino, comprido, asas da graúna. Há uma história rodeando aquela mulher, uma só para a franja. E outra que faça valer o preço do corte: o cabeleireiro faz pose, usa várias tesouras, movimentos desiguais, puxa conversa, fala das novas tendências, da vida dos outros, um papo de energia, história de novela das sete, subtrama.
Do banheiro, enquanto leio o jornal, dá para ouvir a mesma música tocada várias vezes no piano, uma aula, ou ensaio. Pra mim, já está perfeita. Mas os dedos continuam saltitando, gastam o piano alemão, madeira escura. A pianista é loira, pontas encaracoladas, unhas curtas, toca uma paixão mal resolvida, tropeça quando a saudade aperta. Ou talvez seja morena, acima do peso, vestindo regata manchada, short curto, cabelo desgrenhado, tocando a mesma música todos os dias, sempre no mesmo horário, como código para chamar atenção do vizinho da frente. Vizinho este que também não vejo, mas é de certo atlético, misterioso, desempregado.
Enquanto escolho entre o shampu azul e o amarelo, a moça com uniforme de limpeza encosta no balcão e pede um teste de gravidez. Por debaixo do uniforme, tem uma história, que pode ser comprida ou então bem curtinha - ela ainda não sabe, muito menos eu.
Há uma longa história correndo atrás do homem, dentadura nova, peito estufado, que leva o buquê de flores do campo. Rosto drapeado, caminho decorado. E a história vai atrás, faceira, apesar de mais velha que o sujeito.
E por aí vão as histórias à procura de alguém que se diga seu dono. Andam assanhadas, ainda que ingênuas: são meninas rebolativas, olhos atentos ao redor da pista de dança, dedos cruzados por um convite na hora da música lenta. Eu sou o menino que passa direto, nariz em pé na frente das histórias de mini-saia. Sou o menino bobo, que perde a vez de dançar por timidez, ou medo de pisar no pé da história, mesmo que ela não se importe.
Eu, você e as nossas histórias dividimos a cama. Eu assisto à novela. Você assiste a mim, parado, sem piscar. Te pego no flagra: tem uma história dentro da sua cabeça e eu sou personagem. O bebê da moça da limpeza, o vizinho suado, o segredo do piano e as flores do campo, todos perdem a graça. Me interessa a história dentro da sua cabeça. Com sorte, sou eu a mocinha. Por favor, não me conte, mas eu quero, eu quero saber.
10:16 AM
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Domingo, Junho 19, 2005
AMOR E SEXO BEM DEPOIS DOS ENTA
duas senhoras na sabedoria de seus 70 anos se encontram na esquina:
- Vi seu marido ontem.
- É? Ele não comentou nada.
- Não me viu. Passei depressa e ele estava devagar...
- Quase parando, minha filha! Em tudo!
- Tudo? Mas agora tem Viagra!
- Ah, meu marido tem problema de coração, não pode...
- Como não pode!? O meu é infartado!
- Então, também não.../
- (CORTA) Pode, sim. Tem que poder.
- Pode não!
- Vou fingir que não sei de nada, você não disse nada. Vou indo, hem? Ele tá me esperando.
a mesma senhora (a do marido infartado, que NÃO está devagar-quase-parando), em casa, no papel de mãe que poderia ser avó:
- Mãe, essa calcinha apareceu na minha gaveta e não é minha.
- Deixa eu ver.
- Olha só: pequenininha, preta, escrito "eu te amo" bem na frente.
- Ih! É minha! Bem que seu pai tava dando falta.
*****
Viva o amor na terceira idade, raro e sonhado na mesma proporção.
*****
ATUALIZAÇÃO
Hoje no Gente Boa:
Dá-lhe, vovó!
Nada menos que 27 senhorinhas da terceira idade se inscreveram nos cursos de pompoarismo da sex shop feminina A2 Ella, em Ipanema. O interesse delas vai além do sexo e maioria está ali por recomendação médica. É que a técnica, que ajuda a fortalecer os músculos vaginais, também é considerada um santo remédio para a incontinência urinária.
7:14 PM
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Sexta-feira, Junho 17, 2005
O CORREDOR
Fui convidada para uma festa da pesada num castelo de cristal, estilo esqueça o tubinho preto no armário e tire a poeira daquela fantasia de utilidade bissexta. Antenas douradas, asas reluzentes e muito gliter depois, de lagarta, virei borboleta.
No caminho até o bar, a trezentos quilômetros por hora, tan-tan-tan, me apaixonei à primeira vista. Brasil! Toca o hino da vitória. Ele era moreno, atlético, cabelo despenteado, macacão vermelho. Perfeito, não fosse o tempo de espera até que sua altura ultrapassasse o meu umbigo e se aproximasse o mínimo necessário de minhas antenas serelepes. Ok. O que são vinte e poucos anos de diferença de idade diante do amor verdadeiro?
Cabia a mim a iniciativa.
- Sou sua fã número um.
- Por quê?
- Ué, você não é o Senna?
Ele abaixou a cabeça, olhou para a mãe. Percebi logo: para variar, tinha dado um furo. A mãe respondeu, encobrindo um filho emburrado:
- Ele é o Rubinho.
Como tantos, um amor impossível.
Passei a mão na cabeça do menino e segui meu caminho. Gliter escorrendo pelo pescoço, antenas murchas. Novamente lagarta na frente de todo mundo.
10:21 AM
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Terça-feira, Junho 14, 2005
CURTAS
duas amigas:
- E aí? Voltou a malhar?
- Só a vida dos outros.
- Ah, esse sempre foi seu esporte preferido.
(não, não tenho nada a ver com isso)
um homem e uma mulher:
- O que você tá pensando?
- Nada.
- "Nada" coisa nenhuma! Ninguém consegue pensar nada.
- Você não consegue pensar nada?
- Eu não!
- Porra, então o que que você fica pensando quando eu acho que você não tá pensando nada?
- Quando!?
- Você sabe...
- Ah, meu amor! Vamos brigar por causa disso agora?
- Era isso mesmo que eu tava pensando.
- Sabia que você tava pensando alguma coisa.
- Tava mesmo, quer saber? A gente briga muito, trepa muito, discute a relação muito... Sabe o que é isso, né?
- Falta do que fazer?
- Paixão! É paixão... Será que um dia a gente vai ficar um pouquinho menos apaixonado?
- Pirou?
- Nós dois estamos pirados! Quando é que a gente vai conseguir levar uma vida mais calma, sem tanta emoção?
- Espero que nunca!
duas pessoas (provavelmente, um homem normal e uma mulher em crise, isto é, uma mulher normal):
- Você passou o dia inteiro fazendo isso?
- E não consegui acabar.
- Você complica demais! Olha, você não precisa inventar a roda o tempo todo.
- Não?
- Claro que não!
- Por que você não disse isso antes?
9:59 AM
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Sexta-feira, Junho 10, 2005
MUDANDO DE ASSUNTO (OU QUASE)
Ouço uma voz lá longe, dentro do ouvido, principalmente quando ando sozinha na rua escura. Diz assim "aproveita, menina". Às vezes sopra "cuidado". Dá um medo que alerta, mas não inibe a vontade de viver experiências novas.
O abecedário de sensações inéditas despertadas pela morte me deixou no mínimo no mínimo curiosa sobre o antônimo. Se do meu nascimento não guardo lembranças, há outro jeito além de parir?
8:08 PM
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Segunda-feira, Junho 06, 2005
ÚLTIMAS IMPRESSÕES SOBRE A MORTE
Decepcionou a inabilidade do hospital com o corpo da minha avó. Antes, tão bem cuidada, penteada, medicada para logo depois ser enrolada num lençol, sem nome, ao lado de mais três, sobre uma mesa dura e gélida de mármore. Foi triste, mas não menos do que vê-la trancada numa caixa de madeira, dentro de um cubículo de cimento, vedado com massa e tijolo. Dois lugares em que não queria que minha avó ficasse nem por horas, como no hospital, nem por anos, como no cemitério. Espero que meus netos, quiçá meus filhos, não tenham que passar por isso. Não me refiro ao inevitável, mas à forma que me vi exposta e ele.
Sou agora entusiasta da cremação. E que fosse esta uma opção óbvia e fácil. Se preferível enterrar, que ao menos o plano funerário fosse tão corriqueiro como o de saúde, para poupar os que ficam de encarar seus limites ao ver flácidos, os fortes; pálido, o rosado; abertos, olhos que deveriam estar fechados. Que as funerárias fossem carinhosas, ágeis, infalíveis e não pedissem para ficar com o cartão do INSS.
E que todas as famílias fossem grandes e unidas como a minha, para cada um poder fazer um tanto, justo o que o outro se mostra inapto. Que haja meia dúzia que reze, três que cantem, alguns que chorem, uma dezena que ampare, um para oferecer rosas, dois que vistam o corpo desobediente, quatro para segurar as alças e um que abra as portas da casa para reunir todo mundo e fazer o que deixaria feliz quem não está mais.
A humanidade tem muito o que evoluir quando o assunto é morte. Justo a única certeza da vida e é tão duro lidar com ela, desde a possibilidade à iminência, o medo e a incapacidade de resolver o prático. Ontem não sabia dizer o nome completo dos meus tios, não sabia sequer o meu, onde guardo a chave do carro, como se faz para controlar a tremedeira, em que gaveta da cabeça deixei o pai-nosso. De tão nervosa, não tive lágrimas. Vai ver, foi isso.
6:37 PM
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Terça-feira, Maio 31, 2005
DUAS OU TRÊS IMPRESSÕES SOBRE A MORTE
Tema freqüente na cabeça e no papel, está no meu primeiro conto, escrito para uma cadeira de Letras no curso de Comunicação - A Carta Adeus. Tirei 7. Também no meu primeiro conto publicado - Bianca / Zé / eu. Hoje, infelizmente, mais presente do que nunca.
*****
Em 1911, nasceu Almintas, cabelos eternamente castanhos, olhos verdes. Pariu Eudóxio, Amélia, Edith, José e Lurdes. Que por sua vez botaram no mundo Marilene, Marilúcia, Marisa, Fraga Neto, Júlio, Marco, Cinthya, Sílvia, Suzana, Manoel, Pedro, Paulo, Luciana e, muito tempo depois, eu. Meus primos tiveram Acácio, Acaciana, Laila, Larissa, mais uma Amélia, Helena, Emanoel, Vinícius, Fabrício, Rafael, Bárbara, outro Pedro, João, Daniel, Gabriela, Leonardo, Eduardo, Bruna e outros tantos que moram longe e não decorei o nome. Mas sei reconhecer no sangue.
*****
CENA 23.678.994.325.999 - COPA (CASA DA TIA AMÉLIA) - INT/NOITE
TIA AMÉLIA E FILÓ TOMAM CAFEZINHO.
ALMINTAS ENTRA, BRAVA.
ALMINTAS - Filó, como é que você me deixa ir pro hospital sem calcinha, Filó?
ALMINTAS SAI.
TIA AMÉLIA E FILÓ RIEM.
CORTA PARA:
CENA 23.678.994.326.000 - CORREDOR DO HOSPITAL - INT/DIA
FILÓ E MINHA MÃE, ABATIDAS, ENCOSTADAS DA PAREDE.
FILÓ - Ela disse isso e foi embora. Tava brava, só vendo. Mão na cintura e tudo!
MINHA MÃE - E depois?
FILÓ - Eu acordei...
MINHA MÃE - Essa do sonho, essa é a minha mãe de verdade!
CORTA PARA:
CENA 23.678.994.326.001 - BOX 2 (CTI) - INT/DIA
APITOS DOS APARELHOS. MÁQUINA DE HEMODIÁLISE. RESPIRADOR. LENÇOIS BRANCOS.
ALMINTAS DEITADA, ENTUBADA, PROFUNDAMENTE SEDADA.
CORTA PARA:
FIM?
*****
Há algo de muito errado nisso.
*****
Não lembro da vó brava, mesmo sabendo que ela é. Minha vó faz graça de si mesma e de quem facilitar. Balança a barriga, usa roupa florida, gosta de ganhar talco e sabonete cheiroso.
O CTI tem um cheiro que eu não gosto, entrou dentro do meu nariz e não quer sair.
*****
Viver é perigoso, mas a morte, essa sim, dá um medo brutal. Tem que ter muita coragem para morrer. Espero não estar sozinha.
*****
O paciente do box 1 deve ter seus cinqüenta e muitos anos, sessenta. É mulato e recebe uma única e fiel visita todos os dias. Seu filho adotivo. Hoje apareceu, pela primeira vez, outro rapaz. Há de ser o filho de sangue.
O paciente do box 1 deve ter melhorado um pouquinho.
O paciente do box 3 não é pai, é filho. Recebe muitas visitas, principalmente da mãe (muito nervosa) e o irmão que se esforça para não transparecer o nervosismo. A verdade é que, desde o fim de semana, piorou.
*****
De tudo o que vi, pior não foram os tubos, cateteres, manchas. Mas encontrar minha vó sozinha no quarto, fim de tarde, meia luz.
Oi, vó, a gente tá aqui.
*****
O medo da morte traz à tona a crença escondida no peito. Nunca a visita de um padre foi tão bem-vinda. Ele chegou, já conhecia minha vó. Dona Almintas. Colocou a mão na testa dela, rezou, disse que ela não está sozinha (o que eu já tinha avisado), que Jesus não lhe abandonara, que ela precisava ter força, tranqüilidade e coragem. Muita coragem. Passou um óleo em cruz na testa da minha vó.
Depois veio uma freira, perguntou quem éramos, disse que sou parecida com minha mãe, que é parecida com minha vó. No momento, uma vó parece com a outra, 104 anos, velha, sim; doente, não. Acho que os velhinhos vão ficando cada vez mais parecidos, sobretudo sem dentes. A freira me abraçou com força, botou meu rosto no seu peito.
Ontem foi a vez da psicóloga. Novinha. Desculpe dizer, mas não aparenta saber muito sobre a morte. A médica disse que minha vó não ouve nada. A psicóloga disse para falarmos com ela, darmos notícias, dizer quem está visitando. Minha mãe obedeceu e contou tudo, mandou beijos de quem telefonou, disse que nós a amamos.
*****
Espero nunca desejar a morte da minha própria mãe, por ser a morte a melhor saída. Não. Minha mãe é imortal. E meu pai também. E minha irmã. E meu amor. O personificado e o que sinto por eles.
*****
Os médicos, coitados, têm tarefa dura. Lidam com a morte diariamente, com os corpos moles, os parentes chorosos. Usam metáforas: é como um cristalzinho que pode se quebrar; é como uma vela que pode se apagar. Mas tenho pra mim que chegam a ver os corpos como objetos. Ou não seriam capazes de enfiar um tubo goela da minha vó abaixo. E nunca, jamais, em hipótese alguma, deixariam seu peito descoberto.
*****
Chega uma hora em que o nosso corpo, aquele, não é mais nosso. É dos médicos, é das máquinas, mas nosso não é.
Os olhos da minha vó são os olhos mais fechados que já vi, vedados, colados. Mas eu sei que são verdes, mais verdes do que os olhos verdes costumam ser.
*****
Vou rezar os versos que seu choro não permite sair. Fica tranqüila, palavrinha nem uma vai ficar faltando.
5:57 PM
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Quarta-feira, Maio 04, 2005
A MENINA TRISTE
Era mais uma dessas festas de pessoas alegres, quando um amigo pergunta:
- Cadê a mulher triste?
Ele puxa pelo braço. Mostra.
- Tá aqui.
A menina triste ganhou fama. Sábado vai, sábado vem, a menina triste isso, a menina triste aquilo. Quando não aparece, reclama, tristíssima.
Há quem diga que a menina triste não é triste nada. Se a menina fosse triste, não ia correr atrás de Escola de Samba, serelepe, às 8 da manhã. Nem abrir sorriso só porque achou um vidro de palmito no mercado. Se a menina triste fosse triste mesmo não teria o sono que o cronista nunca vai ter.
Mas ele disse que a menina triste é triste e se ele disse, não há quem possa dizer o contrário. Ele tem provas, sabe mais do que os outros. Ele acolhe a menina com a mesma intensidade que ela se rende a ele.
(Ele merecia um apelido a altura de menina triste. Mas a menina triste não encontrou o apelido certo e fez muxoxo. Ademais, existe um único ele para a menina.)
A menina triste não é só triste. Diz que menina triste é só o primeiro nome. Completo é menina triste de olhos verdes. Acontece que a menina triste não tem olhos verdes. Só com muita boa vontade, depois de horas de choro ou, talvez o caso, verdes só para ele.
Olhos verdes, mentira. Mas a parte da constelação de pintinhas é real. A menina triste pede:
- Conta as minhas pintinhas?
Ele aparentemente aceita e conta pintinha por pintinha, passando a ponta do dedo em cada uma, no rosto e no ombro direto. Chega. Dá um número de três dígitos, anotado no caderno de capa dura - para não esquecer. A menina triste chora, mas está feliz. Não conta pra ninguém. A menina triste tem vergonha de ficar alegre. Não pode.
A menina triste tem medo de barata, de escuro e de ficar sozinha. A menina triste tem medo de ficar sozinha, principalmente, no escuro em lugar que tem barata.
A menina triste usa roupas coloridas, cor-de-rosa, turquesa, mas é só pra disfarçar.
A menina triste esconde as olheiras com base stick.
A menina triste gosta de histórias de amor com final feliz. Quer escrever uma história de amor, mas seus finais são sempre tristes, como a menina.
A menina triste tem ciúme das outras meninas que se dizem tristes só para serem a menina triste. Mas não adianta, eu sei.
Hoje, a menina está mais triste e seus olhos, verdes. A menina triste vai ficar ainda mais triste no sábado, sem casa.
9:55 AM
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Terça-feira, Maio 03, 2005
SE SERVE DE CONSOLO...
Abre aspas.
Semana passada, na praia, uma jovem bonita me pede um autógrafo. Enquanto eu pego papel e caneta, ela diz que é uma grande emoção me conhecer pessoalmente, que está adorando América, é sem dúvida minha melhor novela... Respondo gentilmente que a autora de América é minha amiga Glória Perez. E a moça: "Ah! Lembrei! A sua foi Senhora do Destino". Digo que é outro engano, essa foi do Aguinaldo... E ela pergunta "Qual foi sua última novela"? Respondo que se chamava Celebridade. E ela: "Ah! Também gostei muito!" Sorrio, agradeço e ela arremata: "E o meu autógrafo"?
Mas meu maior momento de "glória" com fãs aconteceu em 1982. Terminou Baila Comigo, grande sucesso de Manoel Carlos. Eu entrei com Brilhante, que tinha grandes erros de armação e não agradou nem um pouco no início. No final da primeira semana, deprimidíssimo, depois de uma noite de trabalho, resolvi ir à praia, mesmo sem ter dormido, para espairecer. Encontro uma conhecida que me apresenta à amiga com quem estava como "de longe o maior escritor de novelas do Brasil". E veio aquela cascata de elogios, que só minhas novelas é que eram boas, na casa dela não se viam as outras etc etc. Até que ela diz: "mas com essas dos gêmeos você se superou, ficamos extasiados, que emoção, que maravilha"! Estava se referindo a Baila Comigo, claro. E, não satisfeita, acrescentou, enfática: "Porque essa que entrou agora, ah! Meu Deus! Que horror! Lá em casa des-li-ga-mos"!
Fecha aspas.
Gilberto Braga, autor das novelas Brilhante, Dancin' Days, Vale Tudo, O Dono do Mundo e Celebridade, entre outras.
10:20 AM
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Sexta-feira, Abril 08, 2005
PARALELOS.ORG
A proposta era escrever um conto pequeninho - só 300 toques.
Cara de pau, tasquei um "inconstitucionalissimamente" (27 toques), seguido de um "paralelepípedo" (14).
Agora ele está aqui, em boa companhia.
Crise dos sete anos
Chegou chutando pedra longe. Admitiu taquicardia - dava para ouvir. 'Acabou', disse ele com voz de barítono. Impactante, irremediável, indigerível, inconstitucionalissimamente, paralelepípedo. O sinal tocou. Coloquei a merendeira no ombro e fui chorar no banheiro do pátio. Depois dele, nunca mais.
7:39 PM
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Sexta-feira, Março 25, 2005
SAIA DA INTERNET E VÁ LER UM LIVRO*
* descaradamente copiado da MTV.
3:06 PM
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Quinta-feira, Março 17, 2005
WORK IN PROGRESS
Que dia é hoje, pergunto. Mas ele não escuta. Ocupado, usa fone de ouvido, frente a frente com o computador, luz da tela iluminando o quarto, misturando-se ao azul da TV. Digita rápido, sem erros. Que dia é hoje, insisto e ele permanece de costas, alheio às minhas angústias, digitando cada vez mais rápido, rápido. Até que me ouve, lá longe, baixinho. Vira-se e diz quê. Foi um quê sem paciência, alto, típico de quem interdita os ouvidos e perde a noção do volume do mundo. Começo a rir, ando com riso solto, e ele ri também. Rimos, longo, largo, como os casais deviam fazer mais vezes. Por que você tá rindo, ele pergunta. Tá rindo de quê, eu, simultaneamente. Nada, nada. Hoje é dia dezessete.
Ele vira-se de costas - tinha escutado tudo - e digita ainda mais rápido, sem errar sequer uma vírgula. Me resta voltar a escrever no caderno de capa dura, continuar de onde parei. Que dia é hoje, penso. Já esqueci. Dou risada, ele ouve, vira-se pra mim, desconfiado - novidade. Tapo a boca com mão direita, caneta vai junto, me denuncia. O que você está escrevendo aí, pergunta. Nada, nada. Depois te mostro. Que dia é hoje mesmo? Você tá de sacanagem com a minha cara? Desculpe, é que eu esqueci, digo. Dezessete, hoje é dia dezessete de março de 2005. Que horas? Ele não responde, finge que não ouviu, depois dá um suspiro. Está impaciente. Resolvo trocar as palavras pra ver se dá jeito. Tem horas, pergunto. Ele demora, até responder oito e quarenta. Olha pra mim e eu apenas levanto o olhar. É suficiente para perceber que ele está bravo.
Há algo que posso fazer para agradá-lo, algo de que ele goste. Uma tentativa, sem poder voltar atrás: está escrito nessa página, de próprio punho, sem edição ou backspace.
Ele olha pra mim, de novo, desconfiado, novidade.
Se continuar assim, estragará tudo, o plano, que é o seguinte: tiro a roupa silenciosamente (short branco, camiseta marrom por baixo, camiseta turquesa por cima, calcinha branca), lhe entrego o papel, ele lê, e pode fazer comigo o que bem entender - desde que cumpra as regras. Praticamente impossível ele não perceber que a mulher deitada em sua cama está tirando a roupa. Ele perceberia, reconheceria o cochicho do tecido deslizando pelas minhas pernas. O plano é muito perigoso. Há a opção de pedir para que ele não olhe - o que pode funcionar perfeitamente ou o contrário, fazer com que ele olhe ainda mais rápido, rápido. Devo desistir? Tem a novela. Ele bate na mesa do computador, é muito bravo.
A folha está acabando, tenho que decidir já. Ele olha pra mim. O que você está escrevendo, pergunta. Nada, nada. (Droga. Vou ter que gastar outra página.) Você vai me mostrar? Talvez, respondo. É sobre o quê? Um plano, confesso. Um plano para você fugir de mim, pergunta. Faço barulho de xis, que é para ele ficar quieto. O plano é tirar a roupa e mostrar as instruções de como usar meu corpo nu. Mas não digo, o plano é secreto. 1) ir pelas beiradas; 2) toque leve; 3) arranhar minhas pernas, pés, dedos... Ele me interrompe, é inexplicavelmente capaz de ouvir meus pensamentos. Sempre faz isso. Olha os seus dedos, ele diz, implica com os dedos do meu pé. Diz que se mexem muito, que se esticam e dobram muito, que se sobrepõe, se cruzam muito, enfim. Você implica comigo, reclamo. É tão bonitinho um em cima do outro, mente.
Arrisco: não olha pra trás de jeito nenhum. Começo a tirar. Não pode olhar de jeito nenhum, repito. Tiro a roupa rápido, rápido (short branco, duas camisetas - puxo de uma vez só, calcinha). Ele pára de digitar. Arranco as páginas do caderno e digo você não queria ler?
Se tudo der certo, essa história não terá fim. Exatamente o que eu quero - que a nossa história não termine nunca.
9:54 PM
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Sexta-feira, Fevereiro 25, 2005
SOBRE A MENINA TRISTE - PARTE I
Samba da bênção
Vinicius de Moraes
É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba com beleza
É preciso um bocado de tristeza
É preciso um bocado de tristeza
Senão, não se faz um samba não
Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
(...)
Fazer samba não é contar piada
E quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração
Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
A tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não
10:00 PM
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Quinta-feira, Fevereiro 17, 2005
ASSUNTO: VOU MORRER DE VERGONHA DEPOIS
quando cheguei em casa, o entregador de jornais já estava na esquina / fiz xixi comprido / senti seu cheiro no meu / vi telecurso 2000, 37a aula de inglês.
na sua cama, o tempo passa depressa demais / durmo pelada / te beijo na testa / quero ver o lençol de bolinha.
me desculpe por ter dito coisas que bêbados falam e se arrependem sóbrios / ter pulado da cama / marcado sua pele de vermelho / ficar pedindo desculpas / tudo isso.
8:34 PM
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Sábado, Fevereiro 12, 2005
NO TEMPO DOS SEM-TPM
Minha mãe não sabe o que é TPM. Por conseguinte, meu pai também não faz idéia do que TPM seja. Aprenderam há pouco, fazendo palavras cruzadas.
Rápido flashback:
CENA 9.384.275.986.567.893.999 - QUARTO - INT/DIA
EU, OLHOS FIXOS NA TELA DO COMPUTADOR. PAI APROXIMA-SE DE MIM COM UMA REVISTA DE PALAVRAS CRUZADAS EM MÃOS.
PAI - "Dolorosos sintomas que surgem às vesperas da menstruação". Com três le.../
EU - (CORTA)TPM.
EU, OLHOS FIXOS NA TELA DO COMPUTADOR.
PAI SAI, SATISFEITO.
CORTA PARA
CENA 9.384.275.986.567.894.000 - SALA - INT/DIA
PAI, SATISFEITO, FECHA A REVISTA DE PALAVRAS CRUZADAS. MÃE ATENTA.
MÃE - Descobriu a palavra que tava faltando?
PAI - É TPM.
MÃE - Tepê o quê?
Fim do flashback.
É por essas e outras que os casamentos duravam mais tempo no tempo dos meus pais.
11:15 AM
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Sexta-feira, Fevereiro 11, 2005
ME PERGUNTO
quem são as pessoas que colocam meu nome no google e chegam aqui.
3:16 PM
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Segunda-feira, Janeiro 31, 2005
SARAU DE SANTA
Agradeço à Elis o convite.
Abaixo, a carta que eu li.
Querido,
Não sei de onde veio essa idéia de escrever carta. Essa é a terceira que começo. Dessa vez, prometo, vou até o fim - embora não saiba onde ele fica. Na primeira tentativa, estava frente a frente com o computador e, por questões óbvias, fracassei. Na segunda, confesso ter rasgado o papel em mil pedaços (tem alguém que vai ficar curioso). Enfim, saquei a caneta de pena e sentei na escrivaninha de imbuia, porta de correr, cinco pequenas gavetas, abarrotadas de papéis ainda menores, tentando pegar um pouco de ar.
Aqui vai tudo bem. Estou sem novidades, os dias parecem se repetir. No trabalho, são sempre quatro da tarde. Meu colchão está quebrado e o controle remoto sumiu - o que me dá uma raiva danada: levanto o corpo e espanto o sono na hora de desligar a TV. Na semana passada, almocei japonês no quilo e estava surpreendentemente ótimo. Ando ansiosa, engordei na barriga. Vou cortar o cabelo amanhã ou depois. Ontem, cheguei na página 90 do livro que você me emprestou. Os dias estão gelados, principalmente, à noite. Deu no jornal que esse vai ser o inverno mais frio dos últimos cinco anos. Minha irmã mandou lembranças. É isso.
Tanto mais a dizer e a maldita inibição. Na sua frente, fecho ecler aberto, nenhuma. Aqui, sozinha no quarto de porta trancada, acredite, tenho vergonha. Escondo as primeiras linhas das sombras do cabideiro, faço garranchos. Não me dou bem com palavras: tento agradá-las, mas elas fogem de mim. Abro o dicionário e folheio páginas em branco. Fecho os olhos e, outra vez, branco. Você, no horizonte, vindo na minha direção com as mãos no bolso da calça jeans. Me dá um sorriso e eu retribuo. Olha pra mim e checa o caminho, olha pra mim e depois para baixo.
Sentimentos em nó cego, não sei o que fazer com eles. Procuro uma ponta, onde?, me aborreço, até que o novelo cai do meu colo, rola pelo chão e sobe pela suas pernas. Posso vê-los. Agarram-se no seu pescoço como pulgas, cravam os dentes, espalham-se como quem se sente em casa, andam de um lado para o outro como formigas, como eu e meu pai. Um deles se esconde atrás da sua orelha. Aqui, aqui. Tantas vezes, no meio de um abraço, te amo. Não conto a ninguém, é segredo. Já disse baixinho, calada da noite, mas você não ouviu - ou entrou no seu sonho, aquele do beijo. Combina.
Peço desculpas: a verdade é que não sei escrever cartas. Sou do e-mail, do frio, de ferro. Com esforço, me derreto em duas ou três linhas rabiscadas em azul bic num guardanapo de bar. Estendo a mão, "Toma" e traço uma reta depressa para, bem longe, tapar meu rosto rubro. Desculpe as repetições, desculpe estar novamente rubra enquanto leio essas palavras. Desculpe por pedir desculpas o tempo todo, ontem, quando estava com enxaqueca. Perdoe as metáforas pobres, meu jeito infantil. É difícil dizer coisas bonitas. Só os vovôs dos seus discos de vinil são capazes - e em pleno café da manhã.
Me sinto mais segura com as pontas dos dedos nas suas costas, nuca, sobrancelha, orelha. É assim que me desembaraço com alguma desenvoltura. Se você prestar atenção, dá pra ouvir.
Te beijo.
Em 21 de junho de 2004.
8:37 PM
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OBS.:
Virei escritora!
Deu no Prosa:
Sarau: Acontece hoje, às 18h, o Sarau de Santa (Almirante Alexandrino 256),no bistrô De Carli, reunindo os escritores Marcelo Moutinho, João Paulo Cuenca e Rosana Caiado. Os autores lerão textos inéditos deles próprios, assim como o público poderá apresentar suas criações literárias.
e no Idéias:
Sarau de Santa: Hoje, a partir das 18h, rola o Sarau de Santa, no bistrô De Carli (Rua Almirante Alexandrino, 256, próximo ao Largo dos Guimarães). Os convidados desta primeira edição são os escritores Marcelo Moutinho, João Paulo Cuenca e Rosana Caiado. A idéia é convidar sempre novos autores para ler textos inéditos, abrindo em seguida espaço para o público.
8:27 PM
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Sábado, Janeiro 29, 2005
FRASE DA SEMANA
"Não fez jus."
Márcio Paschoal, escritor, sobre a minha foto no caderno Zona Sul.
9:05 PM
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Sexta-feira, Janeiro 14, 2005
JAPONÊS DE BAIRRO
Ótima pauta de capa do Rio Show, sobre "japonês básico: não são badalados mas têm clientela fiel e boa comida nipônica caseira".
Feita especialmente pra mim que adoro japonês e não quero / não gosto de / não posso gastar muito.
Que venham as capas de locadora de bairro / loja de roupa de bairro / etc / etc.
Deve ser porque sou tijucana.
6:32 AM
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Escrever não é um dom, mas uma praga, uma coceira que dá dentro da orelha, na ponta dos dedos e você tem que cravar a unha. E quando você cede ao impulso e escreve uma frase boba como essa, dá raiva, você quer escrever bonito, forte, inédito.
Ou, pelo menos, fazer bom uso da pontuação e enganar os trouxas: "escrever não é um dom, mas uma praga - uma coceira que dá dentro da orelha, na ponta dos dedos, e você tem que cravar a unha. E quando você cede ao impulso e, então, escreve uma frase (boba) como essa, dá raiva: você quer escrever bonito, forte, inédito".
Não tenho querido escrever frases longas.
Só MARTA sai.
JORGE tira fotos.
O CHEFE, da porta do gabinete.
Só fácil, aparentemente. Um fácil que me rouba horas de sono.
Natural que não queira escrever se não leio. Ler às vezes me parece uma tremenda chatice.
Dá preguiça.
Mas nesse dia que ainda não sei se é de sol ou cinza, porque ainda não abri as cortinas, li e gostei.
Às seis e meia da manhã.
Li os jovens, que, confesso, não costumam me agradar.
Não é por nada.
Prefiro ler os velhos, ouvir os velhos.
Mas nesse dia que ainda não sei se é azul ou pálido, li esse e depois esse.
E fiquei feliz.
E tive vontade de fazer igual.
Assinar e dizer que fui eu.
6:06 AM
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Segunda-feira, Janeiro 03, 2005
SUJEITO A CHUVAS
Rio 40 graus e o banner aí do lado só quer saber de prever chuvas, chuvas rápidas, pancadas, nublado...
Não posso imaginar outro motivo para tal façanha: o banner honra as próprias calças, isto é, o nome deste blog.
11:22 PM
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MAIORES FRASCOS
O outro foi-se há pouco, menos de dois meses. Presente. Doce. Francês, né? O cheiro ficou encruado no chão do meu quarto por longos e mal cheirosos dias. Hoje, quinze centímetros mais à direita, cinco minutos para meia-noite, espatifou-se o perfume novo. De novo. Presente. Gostosinho. Lavanda.
Droga.
É por essas e outras que amanhã mesmo vou providenciar meu perfume próprio. Já escolhi: "Cheirinho de bebê" - aquele do comercial: "todo mundo gosta!". Dez real, grandão, embalagem de plástico. Aí eu quero ver.
10:54 PM
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Sexta-feira, Dezembro 24, 2004
POR QUE HOMENS DOENTES QUEREM AS MAMÃES
CENA 1 - QUARTO DO CASAL - INT/DIA
ELE, DE BICO. ELA, IMPACIENTE. OS DOIS DEITADOS NA CAMA. ELE COBERTO ATÉ O NARIZ.
ELE: Estou passando muito mal. Acho que vou morrer!
ELA: Que morrer o quê! Uma gripezinha de nada...
ELE PEGA O TELEFONE E DISCA COM FORÇA.
ELA LIXA A UNHA.
ELE: (AO TEL) Estou passando muito mal. Acho que vou morrer!
CORTA PARA
CENA 2 - CASA DA MAMÃE - INT/DIA
MAMÃE, SENTADA NO SOFÁ ESTAMPADO, PREOCUPADÍSSIMA.
MAMÃE: (AO TEL) Tá gripadinho? Ah, meu filhinho querido! Você está se alimentando bem? Tomou o remedinho? Será que é pneumonia?
FIM
2:52 PM
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Segunda-feira, Dezembro 06, 2004
CENA 47 - QUARTO - INT/NOITE
ROSANA, EMPOLGADA, DIANTE DO ESPELHO.
PAI OBSERVA.
- Pai, gostou da minha roupa nova?
- É pro carnaval?
- Não, é pra festa que vou amanhã.
- Festa de carnaval?
- Não, pai! Festa normal!
- Não brinca!
9:17 PM
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Terça-feira, Outubro 19, 2004
TANTO TEMPO SEM
escrever e de repente são tantos assuntos que não sei por que palavra começar.
Cerca de quinze minutos em silêncio: só eu, a caneta, o caderno e meu colchão novo.
Tudo o que consegui rabiscar foi um desenho tosco, repetido ao longo dos anos - nada diferente dos corações, das margaridas e meia dúzia de elementos geométricos.
Se pelo menos eu não tivesse quebrado o scanner...
Enfim.
11:44 PM
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Sexta-feira, Setembro 24, 2004
13 É O NÚMERO DA SORTE DE BIANCA
Depois de alguns meses sem conseguir escolher o nome para batizar o blog, ou melhor dizendo, descobrir um que já não estivesse sendo usado, foram mais longas semanas entre problemas com template, preguiça, falta de assunto e outras chatices. Abaixo, a data do primeiro post que não me deixa mentir. E, ao lado, o banner com a previsão do tempo que me deu uma canseira - elogios, por favor.
Até que apareceu a desculpa ideal para digitar as primeiras linhas por aqui: lançamento da revista Ficções 13 e, na página 39, o meu primeiro conto publicado.
8:36 PM
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Domingo, Julho 04, 2004
teste
11:27 PM
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